6 de março de 2014

Crônicaria de Bolso #8 - A relatividade da (des)igualdade social


(Imagem retirada do site)

Carlos é um cara jovem, sempre teve uma vida boa, nada nunca lhe faltou. Veio de uma família de classe média alta, estudou em uma escola e faculdade particular. Em alguns meses, completaria um ano que havia se formado no curso de Direito.
Como praticamente todo recém formado na área, ainda morava com os pais, com muita dificuldade, pagava as prestações do carro novinho que havia comprado para poder ir trabalhar (hoje em dia, ter carro se tornou pré requisito para ser contratado em um escritório de advocacia).
Apesar de possuir uma graduação e estar fazendo uma pós graduação (paga por seus pais), Carlos ainda não ganhava muito no escritório que trabalhava. Na verdade, ele estava ganhando menos do que custava a mensalidade da pós graduação que estava fazendo. Mas ele tinha sorte de ter pais que pudessem pagar para que ele pudesse estudar.
Em um dia, como outro qualquer, Carlos, como sempre, levantou bem cedo para ir trabalhar. Quanto antes ele chegasse ao escritório, mais fácil seria para conseguir achar uma vaga para estacionar o carro na rua.
Como sempre, Carlos tentou fugir do flanelinha que cuidava dos carros daquele quarteirão, só de pensar em ter que dar algum dinheiro para ele, a raiva tomava conta de Carlos completamente. Porém, mesmo tentando, foi inevitável, quando estava terminando de estacionar, o flanelinha já havia o alcançado.
- E ai, Dotô? Vão lavá o carro hoje? Tá precisando, hein... – disse o “flanelinha” em um tom animado.
- Hoje não, amigo. Fica pra próxima. – Carlos tentou ser direto, porém o mais simpático possível.
- E aquele trocado na volta, chefe? Vou dar aquela olhada no seu carro, beleza? Ai o sinhô traz o cafezin pra nós, né? 
- Beleza, cara. Mas acho que não vou ter nenhum trocado para te dar desta vez... Tô sem grana hoje...
- Não tá fácil pra ninguém, não é Dotô?
- É... Não tá mesmo não... – Carlos já estava totalmente sem paciência para continuar aquela conversa irritante e rotineira. Mas o flanelinha parecia interessado em continua-la.
- Sabe, Dotô, esses dias eu tava fazendo umas contas aí e parei pra pensar... Eu não terminei a escola, né... Muito menos estudei em uma faculdade chique assim, igual a sua, sabe... Não sou Dotô igual ao sinhô, mas to achando que eu ando me virando melhor do que todos esses engravatados engomadinhos ai do seu escritório...
Nessa hora, Carlos se virou rapidamente para o flanelinha e perguntou em um tom ríspido:
- Como é que é?  
flanelinha se apoiou no carro de Carlos e continuou seu pensamento.
- Olha só, Dotô... O sinhô pagou pra estudar em uma escola e uma faculdade das boa, que não devem ter sido nada baratas, tô certo? - o flanelinha se antecipou em responder, antes mesmo que Carlos pudesse pensar na pergunta que lhe haviam feito. - Pois é... Eu estudei em uma escola pública, praticamente largada pelo estado, sabe... E nem sequer terminei o ensino médio. – o flanelinha foi se aproximando lentamente de Carlos. – Aí, outro dia eu tava pensando umas coisa, sabe... Que eu podia tentar terminar o colégio e tentar entrar em uma faculdade, né... Mas foi então que eu me dei conta que eu fiz menos esforço na vida pra ser alguém e ando ganhando muito mais do que quem se mata de estudar por aí... – o flanelinha soltou uma gargalhada bagunçada, deixando Carlos cada vez mais irritado.
- Mas o que você quer dizer com isso? Não tem como você ganhar mais que alguém que estudou a vida toda para ser bem sucedido... Acho que você está fazendo contas erradas... – Carlos respondeu com um tom de soberba e superioridade.
- Será mesmo, Dotô? Pensa comigo. Eu faço o meu horário de trabalho, não pago imposto porque, sabe como é, né... Pros nossos políticos aí eu não tenho um emprego, então não tenho renda, e o melhor de tudo, tenho certeza que ganho mais que o senhô anda ganhando nesse escritório de rico, aí.... – o flanelinha soltou mais um de suas gargalhadas desconcertantes.
Carlos já havia gastado toda a sua paciência com o flanelinha. Então, deu as costas para ele e subiu para o seu escritório.
Depois de uns vinte minutos que havia chegado em sua sala, Carlos não conseguia se concentrar. Só pensava no que aquele flanelinha insolente havia lhe falado, então resolveu fazer as contas.
Em uma média de trabalho baixa por dia, se um flanelinha cobra vinte reais para lavar um carro, e, em média, por dia, ele lavar quatro carros, então ele fatura, em um dia, oitenta reais. Em uma semana, trabalhada de segunda a sexta, ele ganha quatrocentos reais, então, em um mês, ele ganha mil e seiscentos reais. (neste valor não estão inclusos os trocados que recebem de algumas pessoas pela olhadinha no carro).
Carlos não podia se conter de tanta raiva. Mas tinha que admitir, trabalhando quase doze horas por dia, pagando com muito esforço as prestações do carro que comprou, ele ganhava, por mês do escritório em que trabalhava, mil e quatrocentos reais, com uma expectativa de aumento de mais trezentos reais quando finalizasse sua pós graduação, e mesmo assim, não teria condições de ir morar sozinho, teria que continuar a morar com seus pais.

Enquanto se contorcia de ódio por todas aquelas palavras que foi obrigado a ouvir do flanelinha folgado, só conseguia pensar em uma coisa: na vontade súbita que tinha de largar tudo o que havia construído até aquele momento e se tornar mais um flanelinha em uma das ruas perdidas da grande capital massificada pela desigualdade.

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com

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