Uns cinco anos atrás decidi que não queria mais existir. Não me lembro da data exata em que isso começou. Acho que tenho essa vontade desde criança, mas uns cinco anos atrás eu me cansei de todas as pessoas do mundo. Decidi me trancar em mim mesma e não sair nunca mais.
É claro que eu sabia que poderia voltar a falar. Sabia que não cabia a ninguém, senão a mim, me curar de qualquer sorte de traumas e depressões. Mas eu me sentia bem assim, trancada em mim, existindo o mínimo possível para o mundo. A cada dia que eu acordava sabendo que não precisaria gastar qualquer energia para falar, eu me sentia leve e descansada. Como se me comunicar com as pessoas fosse o que de pior pudesse me ocorrer.
É claro que eu sabia que poderia voltar a falar. Sabia que não cabia a ninguém, senão a mim, me curar de qualquer sorte de traumas e depressões. Mas eu me sentia bem assim, trancada em mim, existindo o mínimo possível para o mundo. A cada dia que eu acordava sabendo que não precisaria gastar qualquer energia para falar, eu me sentia leve e descansada. Como se me comunicar com as pessoas fosse o que de pior pudesse me ocorrer.
Meu avô é um homem bruto. Nascido e criado na roça, sua pouca cultura é como a de um escravista saído do livro Menino de Engenho. Trata mal aos seus empregados e não demonstra amor por minha avó. Ele é, sinteticamente, tudo aquilo que nenhuma pessoa deveria imitar. Dono de fortunas em forma de fazendas, ele tem certeza que todos lhe devem respeito e, em contrapartida, trata a todos na base do cabresto.
Quando meu avô ouviu que sua neta mais nova estava muda veio logo para a cidade ver com os próprios olhos tal aberração. Ele decidiu que não passava de frescurite e que eu deveria parar com a infantilidade. Em sua opinião, o meu caso era um desvario.
Quando meu avô ouviu que sua neta mais nova estava muda veio logo para a cidade ver com os próprios olhos tal aberração. Ele decidiu que não passava de frescurite e que eu deveria parar com a infantilidade. Em sua opinião, o meu caso era um desvario.
Meus pais, sempre preocupados, demoraram muito para se acostumarem com a ideia de que sua única filha tinha um problema. A princípio me levaram a psicólogos, mas eu continuava me recusando a falar. Nem comigo mesma eu falava. Com o tempo, após várias sessões de terapia e hipnose, depois de consultas a médicos de todas as especialidades que existem, com a falta de um diagnóstico melhor, meus pais começaram a lidar com a questão.
Mas eu continuava sem querer existir. Apenas não falar começava a perder o sentido. Perto dos meus 13 anos passei a querer me matar. O problema é que eu nunca tive talento para o suicídio, e pedir que alguém me matasse parecia uma ideia desvairada. E eu não queria que o meu avô saísse dessa disputa vencedor.
Não era como se eu quisesse ou precisasse ter amigos. Isso nunca foi parte dos meus planos. Aliás, hoje eu percebo que as tentativas de socialização ajudaram-me a emudecer. Desde sempre. Festas de aniversário sempre foram ocasiões perfeitas para eu me trancar em banheiros. Meus pais não me davam a opção de não ir, mas era como se eu não tivesse ido.
Tudo bem. Eu sei que a culpa é toda minha. Foi uma opção desde o princípio. Há cinco anos eu me calei. E agora eu penso que devo voltar a falar. Parece que ter sobrevivido todo este tempo me deu certa coragem de explicar os meus motivos. Eu não passava de uma criança quando tudo começou, mas eles são estanques. Estou frustrada com as coisas do mundo, desde que comecei a tomar consciência sobre o que é o mundo.
Frustra-me saber que meu avô é um hipócrita. Saber que existem velhos ainda piores do que ele. Saber que ele é racista e só aceita ter empregados pretos. Frustra-me imaginar que já houve escravos. Frustra-me ainda mais saber que eles continuam existindo. Pessoas que foram privadas de serem-no. Pessoas que queriam falar e gritar, mas eram amordaçadas e torturadas.
Frustra-me saber que as garotas da minha idade jogam fora o que as mulheres conquistaram duramente no passado. Saber que estas garotas são fúteis e sentem prazer em sê-lo. Com suas fofocas inúteis, sem nenhum ideal. Garotas que vangloriam um ídolo que cospe nelas pela janela de hotéis...
Frustra-me ver meninos mais novos do que eu era quando decidi me anular, trabalhando e vivendo nas ruas. Meninos que não podem dar-se ao luxo de se calarem, de deixarem de existir. Meninos com fome, em meio à miséria que é a vida, em meio à riqueza de tão poucos...
Frustra-me imaginar os bastidores do Poder. A corrupção imunda que cerca a máquina que é o Estado. Esta máquina que temos que obedecer. Frustra-me saber que a corrupção que conhecemos pelos jornais não é o que de pior acontece por lá. Dói-me imaginar o sangue que já foi derramado.
E não é a inocência deste sangue que me dói. É a sua humanidade. Sangue humano, como se fosse de porco. Como se nosso corpo não passasse de um saco de carne e sangue. O que me dói é sentir tanto, é pensar tanto. Tanto que não cabe em mim. Só queria saber a melhor forma de gritar tudo isso. Há cinco anos não falo, não sussurro, não murmuro, não assobio, não canto. E me sinto bem comigo mesma. Mas frustra-me saber que penso e sei, mas não faço. Nem falo...
Por: Marina Gomes Rocha França
De: Belo Horizonte - MG
Email: marinagomesrf@gmail.com



















