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5 de fevereiro de 2014

Não se fazem mais passados como antigamente #29 - Dia de Celebração?

        Pois bem: com algum atraso esta coluna se predispõe a comentar a premiação da 56ª edição do Grammy Awards, que elege as principais gravações musicais do planeta – considere o planeta, nesse caso, como tudo acima do México e uma meia dúzia de países europeus. Mas, por dois motivos, essa mesma coluna vai se dedicar ao tema “rock”: a primeira é porque é do que esta coluna trata. A segunda, e principal: é a que mais explica como, às vezes, premiações não devem ser levadas tão à sério.
O gramofone dos sonhos (foto: reprodução)

        Eu bem que queria falar sobre todas as categorias, mas nenhuma premiação consegue ser mais inchada do que o Grammy: 82 categorias. Queria perder um tempo parabenizando o excelente trabalho de Lorde e Daft Punk, ou de gente como John Coltrane (vencedor na categoria “melhor nota de álbum”), ou ao Gypsy Kings (vencedores em “world music”), ou mesmo ao apresentador americano Stephen Colbert, vencedor na categoria “álbum falado”, mas vamos nos focar nas principais do velho ritmo.


Melhor performance de rock
Imagine Dragons – Radioactive (venceu)

                É difícil entender como uma banda como Imagine Dragons venceu, em seu sétimo ano de carreira, a categoria “melhor performance de rock”. Tudo bem, Radioactive é uma canção que prende, que é feita para multidões gritarem seu refrão. Mas dá mesmo pra chamar “rock” a batida que em bem pouco tempo se ouve uma guitarra (e mais um sampler digno de David Guetta)?  A situação só fica pior quando se comparam os concorrentes: The Stars, que marcam o retorno triunfal de David Bowie; My God is the Sun, do QOTSA. Ouçam e tirem suas próprias conclusões.



Melhor canção de rock
Cut me Some Slack – Paul McCartney e Nirvana (venceu)

        Eu tenho uma das minhas bandas favoritas entre os candidatos, mas achei que “Panic Station” é fraca e com um clipe beirando o ridículo; não é possível negar que, décadas após o seu auge, Black Sabbath e Rolling Stones ainda sabem como produzir excelentes composições e derreter uma multidão de corações; e torcia fortemente para que o prêmio fosse para Gary Clark, que pode ter apenas dois ou três discos, mas já se consolida como uma voz e guitarra extremamente sensível e habilidosa. Mas fica impossível, absolutamente im-pos-sí-vel competir com Paul McCartney, o Quico do mundo musical.
        Ele, que lançou o soberbo New no final do ano passado (podendo concorrer em 2015 apenas), ganhou com uma performance do final de 2012. Foi no 12.12.12, um evento de caridade para as vítimas do furacão Sandy, que ele se uniu aos três remanescentes do Nirvana – Krist Novoselic, Pat Smear e o primo-rico Dave Grohl – para a primeira reunião desde a morte de Kurt Cobain, o Rafael Ilha americano, em 1994.
        Com seus poderes de buraco-negro, Paul entortou os três e conseguiu uma canção nova que era a sua cara. Cut me some slack caberia muito bem em um álbum mais sombrio dos Wings, ou então não seria surpresa se ela aparecesse no lugar de “Helter Skelter” no Álbum Branco. Bastante metal, bastante barulho, mas ainda sim o rock com a cara de McCartney (ainda bem, pois se ficasse com a cara do Nirvana ia ser uma tristeza).


Melhor disco de rock
Celebration Day (Live) – Led Zeppelin (venceu)

        Se você já lê essa coluna há algum tempo, já entende meu raciocínio e provavelmente está se pensando “mas como você irá criticar o Led Zeppelin, a maior banda de todos os tempos etc etc etc?”. Pois bem, seu raciocínio está (meio) certo.

        Pois 2013 foi um ano excelente para o rock. Bem diferente dos anos anteriores, teve emoção já em seu oitavo – quando David Bowie cantou parabéns para si mesmo lançando a primeira música inédita em dez anos.O álbum dele, The Next Day, era para mim o favorito, o melhor, o mais bonito, o mais brilhante entre todos. Até outros que estão na lista me surpreenderam positivamente – depois de uns anos longe de sua banda de apoio, Neil Young retornou com a Crazy Horse e lançou um álbum potente e mais psicodélico do que muita coisa nos anos 90; quase sempre eleito o melhor do ano passado, ...Like clockwork realmente merecia alguma atenção, mas corre por fora em prêmios como esse, já que  não é mainstream o bastante. Até o Kings of Leon tirou de si o estigma de “banda de hits” e lançou um trabalho mais autoral, que não tem músicas tão chicletes como, por exemplo, Use Somebody.

        Tá, e o que tem o Led Zeppelin nisso?

        Pois bem, muitos comemoraram. E Celebration Day é realmente uma obra. Mas, visto o ano que o rock teve, por que dar o prêmio a um disco ao vivo lançado em 2012 – gravado em 2007? Pois é, Celebration foi gravado durante um show em memória a Ahmet Ertegun, presidente da Atlantic Records, que faleceu naquelejá longínquo ano. O empresário foi o responsável pelas gravações da banda, e a reunião foi justificada sobre isso.
        E que performance...mais...meh. Tudo bem, eu choraria litros vendo Jimmy Page e Robert Plant tocando em minha frente. Mas Plant já não era o mesmo – há sete anos, além de mais parecer um sósia do Pedro de Lara,  ele estava pálido, uma sombra dos agudos da década de 1970. Por isso, álbuns como o Led Zeppelin IV e Physical Graffiti deveriam ter sido indicados, respectivamente, em 1970 e 1976, para álbuns do ano - não o foram, e hoje existe meio que um "senso de justiça" nessa premiação tardia.

        A guitarra de Jimmy Page segue impecável, mas ao que parece, faltou ensaio para a banda. Foi o que eu senti ouvindo a minha canção favorita da banda, Stairway to heaven: nem o solo magistral parecia ter escapado de ganhar umas rugas.


        Pois bem, 2014 foi o ano em que o Grammy derrapou no rock. Em outras categorias, o script foi seguido: é impossível não coroar o grande trabalho do Daft Punk. Ou da jovem sensação Lorde. Agora, se você quer ter uma vitrolinha dessas em casa, saiba que alguns caminhos são bem fáceis. Basta lembrar que cinco presidentes americanos já ganharam um – Barack Obama tem dois, em 2006 e 2008. Como notamos esse ano, rock não é lá uma das prioridades do festival. Então não desista dos seus sonhos de ter um Grammy.

        Se bem que, ultimamente, anda mais fácil ser presidente dos Estados Unidos que roqueiro para se ter um desses.

Por: Guilherme Mendes
De: Carapicuíba - SP
Email: g.lazaro@outlook.com

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