(Imagem: Heitor Shewchenko)
Rebeca se
considerava uma menina educada, politizada e culta. Seguia os padrões culturais
da classe média brasileira, lia muitos livros, fazia faculdade, frequentava
bares e festas.
E assim
como muitos outros brasileiros, sentia que era incompreendida e injustiçada,
tinha certeza que o mundo era rodeado por pessoas egocêntricas e que apenas ela
enxergava a cegueira alheia sob a sociedade.
Um belo
dia, após uma aula de direitos humanos que acabara de assistir na faculdade,
caminhava pela rua tagarelando com uma amiga de sala, em direção a um
restaurante.
Mas pouco
durou sua tranquilidade matutina, no momento em que caminhavam tranquilamente
pela faixa de pedestre, foram surpreendidas por um barulho ensurdecedor do
freio de um carro, que por questão de milímetros não passou por cima delas. Por
alguns instantes, continuaram paradas e aterrorizadas em frente ao motorista.
No
momento em que voltou para si, se deparou com um rapaz tão jovem quanto elas,
mas histérico por ter sido obrigado a frear seu carro para não atropela-las.
Por volta de uns dois minutos ambas ficaram caladas ouvindo toda aquela imundice
que saía da boca daquele jovem arrogante.
Depois de
se satisfazer ao gritar todos os insultos que conhecia o jovem, entrou no carro
e, novamente, cantando o pneu, na intenção de demonstrar a fúria que sentia
pelas duas, foi embora e sumiu por entre o rio de carros.
Rebeca
não cabia mais em si. Juntamente com sua amiga, foram em direção ao restaurante
gritando loucuras sobre a falta de educação dos brasileiros no trânsito.
- Porque
tudo na Europa e nos EUA é muito melhor! Por lá todo mundo deixa o pedestre
atravessar calmamente pela rua, não existe essa falta de educação no trânsito.
Brasileiro é muito egoísta mesmo... Devo ter nascido no lugar errado... –
depois de um grande suspiro, continuou. – É por isso que eu sempre falo se
agora está assim, imagine esse lugar na copa! O SUS vai encher de gringo
atropelado.
- Pelo
menos assim o governo tem algum motivo para fazer o SUS funcionar, né? –
Cláudia, amiga de Rebeca, finalizou o assunto com uma frase de impacto.
Depois
daquele dia estressante, Rebeca só queria saber de relaxar. Tomou um banho, se
arrumou toda e pegou seu carro. Resolveu encontrar uns amigos da faculdade em
um barzinho novo na cidade.
Não ligou
de tomar alguns copos de cerveja, afinal de contas, não ia beber muito e estava
pertinho de casa, não havia porque temer, com certeza não passaria por nenhuma
blitz.
Depois de
umas quatro horas muitos copos bebidos e muitas conversas fiadas, já haviam
passado. Rebeca assustou-se com o horário quando olhou para o relógio, pois tinha
que acordar cedo no dia seguinte. Deixou um dinheiro na mesa, contribuindo com
sua parte na bebedeira da noite e se despediu rapidamente de seus amigos.
Entrou no
carro e tomou o rumo de casa. Andava em uma rua calma e deserta, no momento em
que sua música preferida começou a tocar no rádio, ela se distraiu por alguns
segundos para aumentar o volume, quando um barulho absurdo quase a matou do
coração. Depois que desceu do carro é que se deu conta do que realmente estava
acontecendo. Ela havia atropelado um senhor de idade que estava atravessando a
rua.
Uma hora depois
do acidente, o local já estava rodeado de policiais e com uma ambulância.
Rebeca chorava incessantemente. Seu pai já estava no local e conversava com um
dos policiais em particular, sua mãe tentava, desesperadamente, acalmá-la.
Um dos
paramédicos sentia-se enojado, revoltado. Sabia que deveria continuar seu
trabalho calado, mas não conseguiu conter sua língua dentro da boca.
- As
pessoas são muito egoístas mesmo... Onde já se viu... Aposto que o ‘papaizinho’
dela vai ‘molhar’ a mão do policial e tudo ficará bem de novo. Amanhã ela ganha
um carro novo e sai para passear com suas amigas. Enquanto isso, o senhor aqui
passará meses corridos na fisioterapia para tentar voltar a andar novamente...
- Pois
é... – disse o outro paramédico. – Ninguém tem mais consciência de nada, hoje
em dia. Pedestre tem que andar com olhos atentos no trânsito, as pessoas estão
com tanta pressa que não têm tempo de pensar no cuidado com os pedestres na
rua... É revoltante! E é por isso que eu sempre falo se agora está assim,
imagina na copa...
Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com




















