#05: Visibilidade Trans

Confira na capa do mês de fevereiro da Revista Friday, uma entrevista sobre os desafios de uma pessoa trans, com a ativista LGBT Rebecka de França.

INTERNET: Mudanças, tecnologia e Google+

Confira algumas mudanças que o google+ realizou para agradar os usuários.

Conexão Canadá: Vancity- The Journey begins

Camila Trama nos conta um pouco de seu intercâmbio em alguns lugares do Canadá.

CINEMA: Sassy Pants

Rebeldia, insatisfação e as paixões fazem parte do cotidiano de todos os adolescentes, confira a resenha do filme Sassy Pants.

VITRINE: O universo feminino de Isadora Almeida

Inspirada por ilustrações de moda, estamparia e coisas que vê por aí, conheça o trabalho da ilustradora mineira Isadora Almeida.

Mostrando postagens com marcador Crônicaria de bolso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicaria de bolso. Mostrar todas as postagens

10 de fevereiro de 2014

Crônicaria de Bolso #7 - O pop star deportado


(Imagem: Heitor Shewchenko)

A luz do sol batia, na janela da cela dos presos na delegacia, de forma tão intensa que JB foi obrigado a ter seu sono interrompido. Ele ainda estava tentando ajustar a sua visão à luz local, quando foi chamado pelo policial.

- Ei, pop star, o juiz está te esperando.
JB se levantou lentamente, sua cabeça doía de uma forma intensa, mas mesmo assim, conseguiu se manter de pé.
Apesar de ter sido, mais uma vez, preso - dessa vez, por dirigir sem carteira de motorista e sob o efeito de álcool e alguns entorpecentes proibidos -, JB não estava preocupado, esse episódio seria apenas mais um entre tantos outros que também haviam terminado em uma cadeia. Isso, praticamente, já fazia parte da sua rotina de noitadas insanas.
Ao chegar ao tribunal, acompanhado por policiais – que ao mesmo tempo em que acompanhavam o delinquente até o tribunal, o protegiam do assédio de todos os jornalistas, que já se encontravam a postos, em frente ao fórum, para conseguir pegar um depoimento de JB sobre o fato criminoso que havia cometido -, JB foi colocado sentado em uma cadeira em frente ao juiz.
Alguns minutos depois, o juiz entrou no tribunal e sentou rapidamente em sua mesa. Após dar uma leve batida no martelo, iniciou a leitura do resumo dos fatos:
- JB, 19 anos de idade, foi encontrado dirigindo um veículo automotor, sem possuir carteira de motorista, demonstrando sinais de embriaguez e sob o efeito de entorpecentes. O senhor confirma as alegações, Sr. JB? – Olhando por cima dos óculos, o juiz lançou um olhar de reprovação juntamente com um ar de total ausência de paciência.
Com um leve sorriso no rosto, JB respondeu:
- Excelência, confirmo, confirmo o que o senhor quiser... Pode pular para a parte do valor da fiança que devo pagar, por favor?
O juiz tirou os óculos e calmamente respondeu ao requerimento absurdo que acabara de ouvir:
- Meu caro, creio que fiança, em seu caso, não seja mais uma opção. Tendo em vista os inúmeros delitos que constam em sua ficha criminal, bem como, o fato do senhor ainda não ter cidadania americana, creio que seu destino não está mais em minhas mãos. Possuo aqui uma petição da Promotoria, na qual é requerida a deportação do senhor de volta para o Canadá.
Súbito, JB se levanta da cadeira e, vorazmente, inicia uma disparada de insultos ao juiz misturados com toda a sua revolta ao que estava ouvindo naquele momento.
- Mas isso é um absurdo! Você sabe quem eu sou? Quem você pensa que é para falar comigo desse jeito? Quero meu advogado aqui AGORA!!!
- Meu caro, creio que o senhor já esteja muito encrencado para ter mais uma condenação por desacato à autoridade em sua ficha. É melhor o senhor se sentar, pois ainda tenho muito o que lhe dizer. E ah, o seu advogado foi chamado, mas ele renunciou a causa, como sua família teve dificuldades em encontrar alguém que quisesse defendê-lo, o senhor será representado por um defensor público. – O juiz fez uma pausa para tomar um pouco de água – Continuemos. Foi juntada à petição da Procuradoria de Justiça um pedido da população para a efetivação da sua deportação, que contém mais de 180 mil assinaturas até o momento...
JB não conseguia acreditar em tudo o que ouvia e no momento em que tentou se manifestar, novamente, foi prontamente interrompido pelo juiz que continuou a atualizá-lo dos acontecimentos.
- ...Ocorre, senhor JB, que recebemos do Consulado Canadense uma carta declarando que o senhor não poderá mais retornar ao Canadá, tendo em vista que, após cometer tantos delitos e demonstrar tanto desrespeito às leis de vários países, o senhor perdeu o seu registro de nacionalidade canadense.
- Mas... Como? Como assim? Eles não podem fazer isso! – JB começou a ter um ataque de desespero, por não saber e não entender como tudo aquilo estava acontecendo como ele. – Vocês são todos uns idiotas, babacas! Eu faço o que eu quiser, eu tenho dinheiro! Vou para onde eu quiser, não preciso de vocês! Querem me deportar? Me deportem então! Não preciso voltar pro Canadá, existem milhares de lugares no mundo em que eu possa ir, seus idiotas!
Com um leve sorriso no rosto, o juiz deixou que JB gritasse por algum tempo, depois o interrompeu e se preparou para contar para ele a melhor parte de toda a história.
- Aí é que o senhor se engana, meu caro... Estão fazendo várias reclamações sobre você pelo mundo inteiro, ocorre que nenhum país está querendo recebê-lo, com exceção de um país...
- Ah, é? E que país seria esse, Vossa Excelência? – Respondeu JB com o tom de deboche.
- Esse país, meu caro, é aquele no qual você fez questão de anunciar para o mundo inteiro que nunca mais colocaria seus pés por lá. Por acaso o senhor se recorda dessa sua declaração?
De repente, o sorriso debochado de JB sumiu de sua feição, ele sabia exatamente qual país no qual o juiz estava se referindo e aquela notícia não o deixou nada contente. Sentiu todo o calor de seu rosto sumir e se misturar com o frio que sentia em sua barriga.
- É esse mesmo, meu caro... – o juiz soltou um sorriso frouxo – É o Brasil, Baby. 

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com

Você já curtiu a Revista FRIDAY no Facebook? faça como eles ;)

14 de outubro de 2013

Crônicaria de Bolso #4 - Pare!

(Imagem: Heitor Shewchenko)

Rebeca se considerava uma menina educada, politizada e culta. Seguia os padrões culturais da classe média brasileira, lia muitos livros, fazia faculdade, frequentava bares e festas.
E assim como muitos outros brasileiros, sentia que era incompreendida e injustiçada, tinha certeza que o mundo era rodeado por pessoas egocêntricas e que apenas ela enxergava a cegueira alheia sob a sociedade.
Um belo dia, após uma aula de direitos humanos que acabara de assistir na faculdade, caminhava pela rua tagarelando com uma amiga de sala, em direção a um restaurante.
Mas pouco durou sua tranquilidade matutina, no momento em que caminhavam tranquilamente pela faixa de pedestre, foram surpreendidas por um barulho ensurdecedor do freio de um carro, que por questão de milímetros não passou por cima delas. Por alguns instantes, continuaram paradas e aterrorizadas em frente ao motorista.
No momento em que voltou para si, se deparou com um rapaz tão jovem quanto elas, mas histérico por ter sido obrigado a frear seu carro para não atropela-las. Por volta de uns dois minutos ambas ficaram caladas ouvindo toda aquela imundice que saía da boca daquele jovem arrogante. 
Depois de se satisfazer ao gritar todos os insultos que conhecia o jovem, entrou no carro e, novamente, cantando o pneu, na intenção de demonstrar a fúria que sentia pelas duas, foi embora e sumiu por entre o rio de carros.
Rebeca não cabia mais em si. Juntamente com sua amiga, foram em direção ao restaurante gritando loucuras sobre a falta de educação dos brasileiros no trânsito.
- Porque tudo na Europa e nos EUA é muito melhor! Por lá todo mundo deixa o pedestre atravessar calmamente pela rua, não existe essa falta de educação no trânsito. Brasileiro é muito egoísta mesmo... Devo ter nascido no lugar errado... – depois de um grande suspiro, continuou. – É por isso que eu sempre falo se agora está assim, imagine esse lugar na copa! O SUS vai encher de gringo atropelado.
- Pelo menos assim o governo tem algum motivo para fazer o SUS funcionar, né? – Cláudia, amiga de Rebeca, finalizou o assunto com uma frase de impacto.
Depois daquele dia estressante, Rebeca só queria saber de relaxar. Tomou um banho, se arrumou toda e pegou seu carro. Resolveu encontrar uns amigos da faculdade em um barzinho novo na cidade.
Não ligou de tomar alguns copos de cerveja, afinal de contas, não ia beber muito e estava pertinho de casa, não havia porque temer, com certeza não passaria por nenhuma blitz.
Depois de umas quatro horas muitos copos bebidos e muitas conversas fiadas, já haviam passado. Rebeca assustou-se com o horário quando olhou para o relógio, pois tinha que acordar cedo no dia seguinte. Deixou um dinheiro na mesa, contribuindo com sua parte na bebedeira da noite e se despediu rapidamente de seus amigos.
Entrou no carro e tomou o rumo de casa. Andava em uma rua calma e deserta, no momento em que sua música preferida começou a tocar no rádio, ela se distraiu por alguns segundos para aumentar o volume, quando um barulho absurdo quase a matou do coração. Depois que desceu do carro é que se deu conta do que realmente estava acontecendo. Ela havia atropelado um senhor de idade que estava atravessando a rua.
Uma hora depois do acidente, o local já estava rodeado de policiais e com uma ambulância. Rebeca chorava incessantemente. Seu pai já estava no local e conversava com um dos policiais em particular, sua mãe tentava, desesperadamente, acalmá-la.
Um dos paramédicos sentia-se enojado, revoltado. Sabia que deveria continuar seu trabalho calado, mas não conseguiu conter sua língua dentro da boca.
- As pessoas são muito egoístas mesmo... Onde já se viu... Aposto que o ‘papaizinho’ dela vai ‘molhar’ a mão do policial e tudo ficará bem de novo. Amanhã ela ganha um carro novo e sai para passear com suas amigas. Enquanto isso, o senhor aqui passará meses corridos na fisioterapia para tentar voltar a andar novamente...
- Pois é... – disse o outro paramédico. – Ninguém tem mais consciência de nada, hoje em dia. Pedestre tem que andar com olhos atentos no trânsito, as pessoas estão com tanta pressa que não têm tempo de pensar no cuidado com os pedestres na rua... É revoltante! E é por isso que eu sempre falo se agora está assim, imagina na copa... 

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com

Você já curtiu a Revista FRIDAY no Facebook? faça como eles ;)

14 de setembro de 2013

Crônicaria de bolso #3 - 'I had a dream'

(Ilustração: Cagle/Taylor Jones)

Em meio a tantos conflitos que vêm ocorrendo no mundo, o presidente dos EUA pretende meter, novamente, o ‘bedelho’ onde não foi chamado. Mesmo sem o apoio popular e do Congresso de seu Estado, Barack Obama se une ao presidente da França, François Hollande, e aciona seu exército, enviando tropas para a Síria, objetivando exterminar o governo do ditador Bashar al-Assad.
Noite e dia a pobre Síria é bombardeada, tanto pelos aliados à população, quanto pelo próprio estado sírio. Milhares de famílias são devastadas, muitas mortes, catástrofes, pessoas desaparecidas... O país estava aos pedaços, assim como o próprio ditador do Estado. Não havia mais esperanças para aquele governo repressor.
Os presidentes da França e dos EUA, que num encontro na Casa Branca riam e festejavam, concluíram que a ocasião merecia a degustação dos melhores champagnes franceses para comemorar a vitória contra al-Assad.
O mundo estava em festa, até que Obama recebe uma infeliz ligação que interrompe sua comemoração. Naquele momento, todo o sorriso do rosto do presidente desaparece em segundos, o telefone e a taça de champagne escorregam das mãos dele, quase que no mesmo momento, ele corre em direção à janela e descobre que é tarde demais.
A inteligência do exército americano foi invadida e não foi possível impedir a entrada das bombas de al-Assad em Washington. A capital do maior país bélico está sendo bombardeada de todos os lados, bem embaixo do nariz de Obama.
Súbito, Obama acorda gritando e pulando da cama. Michelle, sua esposa, leva um susto com aquela gritaria e também levanta da cama.
Os dois estavam parados um de frente para o outro, cada um de um lado da cama. Obama tinha uma cara assustada, estava ofegante.
- Michelle, eu tive um sonho... Eu tive um sonho. Meu Deus... Foi terrível. – aos poucos foi contornando a cama, indo em direção a sua mulher, pegou nos braços dela e continuou a contar o seu sonho. – Sonhei que eu e o francesinho decidimos que invadiríamos a Síria, mesmo sem o apoio do Estado, e assim o fizemos. Depois de tempos de guerra, aparentávamos ter destruído o governo do al-Assad, e quando estávamos comemorando nossa vitória aqui na Casa Branca, Washington começou a ser bombardeada pela Síria...
Antes que Obama pudesse terminar de contar a agonia que sentiu em seu sonho ao ver seu país sendo bombardeado pelo país de um mísero ditador, Michelle, em tom sério e seguro, o interrompeu. – Obama, de novo? O que nós já conversamos, hein?! Você não vai invadir a Síria, o seu país não te apoia e esse não é o momento de ir contra o entendimento do Congresso. Tire isso da sua cabeça, de uma vez por todas.
- Mas o François disse que...
- François não sabe de nada. Pare de ouvir as baboseiras que aquele homem anda te falando... Alias, me dê seu celular, estou precisando ter uma conversa séria com esse François.
Ao mesmo tempo em que procurava o telefone de François no celular de Obama, Michelle resmungava baixinho. – Ora, onde já se viu... Falou tanto na cabeça do meu marido que até eu não posso dormir agora... Pelo amor de Deus...
- Alô, François? Aqui é a Michelle Obama. Desculpe-me pela inconveniência do horário, mas é urgente. – Começou a andar pelo quarto. – Ligo para avisá-lo que já está decidido, ‘nós’ não vamos invadir a Síria juntamente com o Sr., está entendido? Passar bem.

Desligando o telefone e caminhando, novamente, em direção à cama, Michelle deu a ordem final ao seu marido. – Pronto, Obama, pode voltar a dormir, já está tudo resolvido. Já passei o problema para a frente, agora quem não vai conseguir dormir é a França.

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com

Você já curtiu a Revista FRIDAY no Facebook? faça como eles ;)

26 de agosto de 2013

Crônicaria de bolso #2 - A fugitiva do Planalto

Os ares do Palácio do Planalto estavam pesados, a temperatura de Brasília nada ajudava, o ar era seco e quente.
A 'Presidenta' (como gosta de ser chamada) estava no auge do seu estresse, não aguentava mais toda aquela pressão em suas costas, os assuntos governamentais estouravam em sua cabeça, todos de uma só vez: Copa do Mundo 2014, manifestações populares, corrupção conjunta de seu partido, decisões polêmicas do Judiciário, a responsabilidade de ser a primeira Presidente mulher do país... A lista era grande, quase sem fim.
Ela precisava, nem que por apenas um minuto, respirar um ar limpo, como aquele de sua juventude revolucionária, precisava sentir a liberdade novamente. Presa no Gabinete Presidencial andava de um lado para o outro, aflita, sonhando com o dia em que tiraria férias de todo aquele mundo político sufocante em que se encontrava.
Decidiu que era hora de tirar a mente da panela quente, sentou no sofá e colocou seu filme preferido para assistir 'O diário de uma motocicleta'. A Presidenta achava que o Gael García trazia uma grande credibilidade ao Che Guevara quando o interpretou, um dos seus grandes ídolos da história.
E foi no momento em que se divertia assistindo ao filme, que se lembrou de uma conversa que teve alguns dias atrás, com o secretário-executivo do Ministério da Previdência, onde revelou sua vontade de andar de moto Brasília afora, terminando a conversa com a felicidade de subir na Harley-Davidson do secretário e tirar umas fotos posando como motoqueira.
Esse sangue aventureiro nunca tinha saído de dentro dela e seu sonho de andar livre, leve e solta em uma motocicleta nunca tinha se concretizado, apesar de sempre ter cultivado essa vontade dentro de si.
Resolveu que toda aquela loucura de viver um sonho deveria acabar naquele momento, era preciso dar um basta de uma vez por todas. Afinal, em sua cabeça, viver de sonhos sempre foi viver em vão, mas viver realizando sonhos era o verdadeiro significado da felicidade.
Como um simples estalo, uma ideia veio a sua cabeça. Imediatamente, pegou o telefone e ligou para o seu chefe de segurança e pediu que ele fosse comprar uma Coca-Cola para refrescá-la naquele dia quente. Quando viu que seu caminho estava livre e desimpedido, certificou-se de que o secretário continuava em reunião e correu até a sala dele para pegar a chaves de sua bela moto emprestada por alguns minutinhos.
Foi andando pelo Palácio com muita cautela, não queria que ninguém a visse saindo dela lá, pois sabia que tentariam impedi-la. Quando chegou ao estacionamento, foi de encontro ao manobrista dos carros e com seu sorriso mais simpático, interpelou-o:
-        Ah querido, acabei de me dar conta de que esqueci minha bolsa em minha sala e estou atrasadíssima para uma reunião. Será que você faria a gentileza de buscá-la para mim?
Prontamente, o rapaz se levantou e tomou rumo até a sala da Presidenta.
Quando teve certeza de que não seria mais interrompida por ninguém, ela se sentou na moto do secretário e rapidamente deu a partida, colocou o capacete e saiu cantando pneu, rumo às ruas de Brasília.
Sua felicidade não podia ser maior. Em sua cabeça a trilha sonora que tocava era 'Highway to hell' do AC/CD. A Presidenta era puro êxtase, sentiu como se tivesse seus 20 anos novamente.
Mas para a sua infelicidade, os tempos eram outros, e em plena época de Lei Seca, ela se depara com uma blitz inesperada. Antes que pudesse pensar no que fazer naquele momento, o policial fez sinal para que ela encostasse a moto.
-        Boa tarde, senhora. Habilitação e documentos do veículo, por gentileza.
A Presidenta tirou o capacete, e abriu um grande sorriso para o policial. - Boa tarde, querido. Sabe o que acontece, esta moto não é minha, estou apenas dando uma voltinha para aliviar a tensão lá do Palácio...
Antes mesmo que ela pudesse terminar de se explicar, o policial olhou para ela por cima dos óculos e a interrompeu: - A senhora está me dizendo que está dirigindo um veículo de outra pessoa e não possui a documentação dele? Bom, pelo menos, mostre sua habilitação...
-        Acho que você não entendeu... - seu sorriso foi ficando cada vez mais amarelo – não possuo carteira de habilitação, estou apenas dando uma voltinha, mas vamos fazer o seguinte, desço aqui, ligo para o meu segurança me buscar e fica tudo certo, tudo bem?
Quando tirava seu telefone do bolso para ligar para o chefe de segurança do Palácio, foi imediatamente interrompida pelo policial.
-        Senhora, infelizmente, não posso autorizar essa sua atividade, a senhora cometeu duas infrações de trânsito, dirigiu desabilitada e sem a documentação do veículo, tenho que apreender a moto e registrar uma ocorrência.
Nesse momento, toda a cor que suas bochechas tinham ganhado ao sentir o vento das ruas deram lugar a uma súbita palidez. - Mas como assim? Sou a Presidenta deste país, não posso tomar multa...
-        Senhora, me desculpe, mas regras são regras. - Retirando o bloco de anotações do bolso, continuou. - Então, me esclareça uma coisa, 'Rousseff', se escreve com dois f's ao final?

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com

Você já curtiu a Revista FRIDAY no Facebook? faça como eles ;)

12 de agosto de 2013

Crônicaria de bolso #1 - O verdadeiro Big Brother

            Armando era um sujeito muito rico, foi o fundador de um dos melhores sistemas de segurança entre os existentes no Brasil. Muito orgulho do patrimônio que criou junto à sua empresa de segurança, tinha certeza que ninguém nunca poderia invadir sua privacidade e nem daqueles que aderissem ao seu produto.
            Sempre foi um cara muito recatado, nem mesmo sua mulher, com quem completava 25 anos de casado, sabia das suas maiores intimidades, ele não era “um livro aberto” como são algumas pessoas.
            Achava abominável alguém se submeter a um programa de televisão no qual a pessoa era vigiada 24 horas por dia, por qualquer pessoa do mundo, simplesmente para ficar famoso e tentar ganhar o prêmio final. Não compreendia como alguém poderia abrir mão, tão facilmente, da sua liberdade individual, de suas intimidades, para ser conhecido pelo mundo. Aquilo simplesmente não entrava em sua cabeça.
            Acontece que Armando tinha seus motivos para manter sua vida privada da melhor maneira possível. Ele vinha de uma família muito tradicional e, por isso, certas 'modernidades' não eram bem vistas. Era um homem muito bem casado, sua mulher além de muito bonita, era uma esposa invejável, porém, toda a sua perfeição não dava a Armando toda a felicidade que almejava.
            Apenas uma pessoa no mundo sabia do maior segredo de Armando, e esse alguém era Ricardo, seu amante e maior confidente. Essa relação era escondida a sete chaves. Eles nunca se ligavam ou mandavam mensagens de texto no celular, porque Armando tinha medo de ser roubado e alguém acabar descobrindo sua farsa. Por isso, conversavam apenas por e-mail, esse era um que e-mail que apenas os dois sabiam da existência.
            Armando sempre foi muito seguro de que sua relação com Ricardo nunca seria descoberta por ninguém, nem mesmo por sua esposa, pois ele era muito bom em fingir sua atração por ela.
            Até que um certo dia, ao chegar no escritório, percebeu que uma grande euforia envolvia todos que lá estavam. Quando Armando começou a caminhar no corredor em direção a sua sala, aos poucos, todos foram parando de falar e começaram a olhar estáticos para ele. Meio desconcertado com todos aqueles olhares em cima dele, apertou o passo e seguiu em direção a sua sala.
            A primeira página que abria no computador, todos os dias, ao chegar ao trabalho era a do jornal, para se atualizar sobre as notícias do dia. Mas dessa vez, ficou pálido e sem ar quando leu uma notícia escandalosa da primeira página: um certo homem havia revelado ao mundo que os EUA tinha um sistema de espionagem que ia além do permitido, eles ultrapassavam os direitos de privacidade de qualquer cidadão do mundo, poderiam invadir qualquer computador.
            Quase que imediatamente, Armando começou a se abanar com um bolo de papéis que estavam jogados em sua mesa. De repente, ele não se sentia mais seguro. Em um impulso, disparou a escrever um e-mail para Ricardo, precisava avisá-lo que tinham descoberto tudo entre eles. O temor de que alguém pudesse descobrir sobre seu amante, já estava tão avançado que chegou a conclusão, que a essa altura do campeonato, todos já deveriam estar sabendo, com certeza seu e-mail havia sido hackeado, não tinha dúvidas.
            Seus sintomas de desespero começaram a tomar grandes proporções, sentia que haviam invadido a sua mente, que revelariam os seus maiores segredos e assim ele seria humilhado publicamente. Temia, até mesmo, perder sua empresa. Começou a suar frio e a respirar fazendo um grande esforço.
            Lembrou que ao chegar ao escritório, todos o olhavam com cara de surpresa, iniciaram então os seus sintomas de taquicardia. Foi correndo pegar um copo de água.
            Eles sabiam, é claro que eles sabiam! Os olhos de todos estavam julgando Armando. Ele tentava tomar a água, mas a tremedeira de sua mão não permitia.
            Se todos que trabalhavam em sua empresa já sabiam do seu romance secreto, sua mulher já deveria estar sabendo de tudo também, pensou. Era o fim, sabia que perderia tudo, sua família nunca o perdoaria.
            De repente, seu celular começou a tocar, era sua mulher. Ele não podia atender, tinha medo do que ela poderia dizer para ele, mas ela insistia e ligava sem parar.
            Sabia que nessas circunstâncias não conseguiria viver, aquilo tudo era muito difícil de encarar. Saiu correndo de sua sala, entrou no elevador e subiu para o terraço do prédio. Já sabia o que deveria fazer.
            Súbito, Armando não pensou duas vezes, foi para a beirada do prédio, mas não se deixou cair na tentação de olhar para baixo. Respirou fundo e mergulhou em direção à calçada do hall de entrada de sua empresa.
            Seu funeral ocorreu logo no dia seguinte. Sua esposa estava inconsolável, não conseguia compreender porque seu amado marido poderia cometer algo tão terrível, nunca suspeitou que ele pudesse estar infeliz.
            Quando chegou em casa, a mulher de Armando foi direto para seu quarto, não queria ver ninguém naquele momento. Assim que entrou, fechou a porta e começou a tirar seus sapatos. Por alguns instantes, tinha conseguido parar de chorar, mas foi só olhar para o jornal, do dia anterior, que estava em cima de sua cama, que desmoronou novamente.
            Ela nunca entenderia o que havia acontecido e sabia que em sua cabeça, sempre moraria a dúvida. Olhando para a foto de Armando, que estava na primeira capa do jornal, começou a sorrir ao mesmo tempo em que soluçava tentando segurar o choro.
            A manchete do jornal dizia que a empresa de segurança de Armando tinha sido prestigiada com um dos maiores prêmios que uma empresa poderia sonhar em ganhar, e a foto que acompanhava a reportagem era dele, em frente ao prédio principal de sua empresa, com um grande sorriso estampado no rosto.
            Inconsolada, sua mulher acariciava a foto do jornal, e a única coisa que conseguia pensar, naquele momento, era a tristeza de não ter tido tempo de se despedir de seu amado e nem de tê-lo visto comemorando uma das premiações mais importantes de sua vida.

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com

Você já curtiu a Revista FRIDAY no Facebook? faça como eles ;)