Armando era um sujeito muito rico,
foi o fundador de um dos melhores sistemas de segurança entre os existentes no
Brasil. Muito orgulho do patrimônio que criou junto à sua empresa de segurança,
tinha certeza que ninguém nunca poderia invadir sua privacidade e nem daqueles
que aderissem ao seu produto.
Sempre foi um cara muito recatado,
nem mesmo sua mulher, com quem completava 25 anos de casado, sabia das suas
maiores intimidades, ele não era “um livro aberto” como são algumas pessoas.
Achava abominável alguém se submeter
a um programa de televisão no qual a pessoa era vigiada 24 horas por dia, por
qualquer pessoa do mundo, simplesmente para ficar famoso e tentar ganhar o
prêmio final. Não compreendia como alguém poderia abrir mão, tão facilmente, da
sua liberdade individual, de suas intimidades, para ser conhecido pelo mundo.
Aquilo simplesmente não entrava em sua cabeça.
Acontece que Armando tinha seus
motivos para manter sua vida privada da melhor maneira possível. Ele vinha de
uma família muito tradicional e, por isso, certas 'modernidades' não eram bem
vistas. Era um homem muito bem casado, sua mulher além de muito bonita, era uma
esposa invejável, porém, toda a sua perfeição não dava a Armando toda a
felicidade que almejava.
Apenas uma pessoa no mundo sabia do
maior segredo de Armando, e esse alguém era Ricardo, seu amante e maior
confidente. Essa relação era escondida a sete chaves. Eles nunca se ligavam ou
mandavam mensagens de texto no celular, porque Armando tinha medo de ser
roubado e alguém acabar descobrindo sua farsa. Por isso, conversavam apenas por
e-mail, esse era um que e-mail que apenas os dois sabiam da existência.
Armando sempre foi muito seguro de
que sua relação com Ricardo nunca seria descoberta por ninguém, nem mesmo por
sua esposa, pois ele era muito bom em fingir sua atração por ela.
Até que um certo dia, ao chegar no
escritório, percebeu que uma grande euforia envolvia todos que lá estavam.
Quando Armando começou a caminhar no corredor em direção a sua sala, aos
poucos, todos foram parando de falar e começaram a olhar estáticos para ele.
Meio desconcertado com todos aqueles olhares em cima dele, apertou o passo e
seguiu em direção a sua sala.
A primeira página que abria no
computador, todos os dias, ao chegar ao trabalho era a do jornal, para se
atualizar sobre as notícias do dia. Mas dessa vez, ficou pálido e sem ar quando
leu uma notícia escandalosa da primeira página: um certo homem havia revelado
ao mundo que os EUA tinha um sistema de espionagem que ia além do permitido,
eles ultrapassavam os direitos de privacidade de qualquer cidadão do mundo,
poderiam invadir qualquer computador.
Quase que imediatamente, Armando
começou a se abanar com um bolo de papéis que estavam jogados em sua mesa. De
repente, ele não se sentia mais seguro. Em um impulso, disparou a escrever um
e-mail para Ricardo, precisava avisá-lo que tinham descoberto tudo entre eles. O
temor de que alguém pudesse descobrir sobre seu amante, já estava tão avançado
que chegou a conclusão, que a essa altura do campeonato, todos já deveriam
estar sabendo, com certeza seu e-mail havia sido hackeado, não tinha dúvidas.
Seus sintomas de desespero começaram
a tomar grandes proporções, sentia que haviam invadido a sua mente, que
revelariam os seus maiores segredos e assim ele seria humilhado publicamente. Temia,
até mesmo, perder sua empresa. Começou a suar frio e a respirar fazendo um
grande esforço.
Lembrou que ao chegar ao escritório,
todos o olhavam com cara de surpresa, iniciaram então os seus sintomas de
taquicardia. Foi correndo pegar um copo de água.
Eles sabiam, é claro que eles
sabiam! Os olhos de todos estavam julgando Armando. Ele tentava tomar a água,
mas a tremedeira de sua mão não permitia.
Se todos que trabalhavam em sua
empresa já sabiam do seu romance secreto, sua mulher já deveria estar sabendo
de tudo também, pensou. Era o fim, sabia que perderia tudo, sua família nunca o
perdoaria.
De repente, seu celular começou a
tocar, era sua mulher. Ele não podia atender, tinha medo do que ela poderia
dizer para ele, mas ela insistia e ligava sem parar.
Sabia que nessas circunstâncias não
conseguiria viver, aquilo tudo era muito difícil de encarar. Saiu correndo de
sua sala, entrou no elevador e subiu para o terraço do prédio. Já sabia o que
deveria fazer.
Súbito, Armando não pensou duas
vezes, foi para a beirada do prédio, mas não se deixou cair na tentação de
olhar para baixo. Respirou fundo e mergulhou em direção à calçada do hall de
entrada de sua empresa.
Seu funeral ocorreu logo no dia
seguinte. Sua esposa estava inconsolável, não conseguia compreender porque seu
amado marido poderia cometer algo tão terrível, nunca suspeitou que ele pudesse
estar infeliz.
Quando chegou em casa, a mulher de
Armando foi direto para seu quarto, não queria ver ninguém naquele momento.
Assim que entrou, fechou a porta e começou a tirar seus sapatos. Por alguns
instantes, tinha conseguido parar de chorar, mas foi só olhar para o jornal, do
dia anterior, que estava em cima de sua cama, que desmoronou novamente.
Ela nunca entenderia o que havia
acontecido e sabia que em sua cabeça, sempre moraria a dúvida. Olhando para a
foto de Armando, que estava na primeira capa do jornal, começou a sorrir ao
mesmo tempo em que soluçava tentando segurar o choro.
A manchete do jornal dizia que a
empresa de segurança de Armando tinha sido prestigiada com um dos maiores
prêmios que uma empresa poderia sonhar em ganhar, e a foto que acompanhava a
reportagem era dele, em frente ao prédio principal de sua empresa, com um
grande sorriso estampado no rosto.
Inconsolada, sua mulher acariciava a
foto do jornal, e a única coisa que conseguia pensar, naquele momento, era a
tristeza de não ter tido tempo de se despedir de seu amado e nem de tê-lo visto
comemorando uma das premiações mais importantes de sua vida.
Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com




















