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12 de agosto de 2013

Crônicaria de bolso #1 - O verdadeiro Big Brother

            Armando era um sujeito muito rico, foi o fundador de um dos melhores sistemas de segurança entre os existentes no Brasil. Muito orgulho do patrimônio que criou junto à sua empresa de segurança, tinha certeza que ninguém nunca poderia invadir sua privacidade e nem daqueles que aderissem ao seu produto.
            Sempre foi um cara muito recatado, nem mesmo sua mulher, com quem completava 25 anos de casado, sabia das suas maiores intimidades, ele não era “um livro aberto” como são algumas pessoas.
            Achava abominável alguém se submeter a um programa de televisão no qual a pessoa era vigiada 24 horas por dia, por qualquer pessoa do mundo, simplesmente para ficar famoso e tentar ganhar o prêmio final. Não compreendia como alguém poderia abrir mão, tão facilmente, da sua liberdade individual, de suas intimidades, para ser conhecido pelo mundo. Aquilo simplesmente não entrava em sua cabeça.
            Acontece que Armando tinha seus motivos para manter sua vida privada da melhor maneira possível. Ele vinha de uma família muito tradicional e, por isso, certas 'modernidades' não eram bem vistas. Era um homem muito bem casado, sua mulher além de muito bonita, era uma esposa invejável, porém, toda a sua perfeição não dava a Armando toda a felicidade que almejava.
            Apenas uma pessoa no mundo sabia do maior segredo de Armando, e esse alguém era Ricardo, seu amante e maior confidente. Essa relação era escondida a sete chaves. Eles nunca se ligavam ou mandavam mensagens de texto no celular, porque Armando tinha medo de ser roubado e alguém acabar descobrindo sua farsa. Por isso, conversavam apenas por e-mail, esse era um que e-mail que apenas os dois sabiam da existência.
            Armando sempre foi muito seguro de que sua relação com Ricardo nunca seria descoberta por ninguém, nem mesmo por sua esposa, pois ele era muito bom em fingir sua atração por ela.
            Até que um certo dia, ao chegar no escritório, percebeu que uma grande euforia envolvia todos que lá estavam. Quando Armando começou a caminhar no corredor em direção a sua sala, aos poucos, todos foram parando de falar e começaram a olhar estáticos para ele. Meio desconcertado com todos aqueles olhares em cima dele, apertou o passo e seguiu em direção a sua sala.
            A primeira página que abria no computador, todos os dias, ao chegar ao trabalho era a do jornal, para se atualizar sobre as notícias do dia. Mas dessa vez, ficou pálido e sem ar quando leu uma notícia escandalosa da primeira página: um certo homem havia revelado ao mundo que os EUA tinha um sistema de espionagem que ia além do permitido, eles ultrapassavam os direitos de privacidade de qualquer cidadão do mundo, poderiam invadir qualquer computador.
            Quase que imediatamente, Armando começou a se abanar com um bolo de papéis que estavam jogados em sua mesa. De repente, ele não se sentia mais seguro. Em um impulso, disparou a escrever um e-mail para Ricardo, precisava avisá-lo que tinham descoberto tudo entre eles. O temor de que alguém pudesse descobrir sobre seu amante, já estava tão avançado que chegou a conclusão, que a essa altura do campeonato, todos já deveriam estar sabendo, com certeza seu e-mail havia sido hackeado, não tinha dúvidas.
            Seus sintomas de desespero começaram a tomar grandes proporções, sentia que haviam invadido a sua mente, que revelariam os seus maiores segredos e assim ele seria humilhado publicamente. Temia, até mesmo, perder sua empresa. Começou a suar frio e a respirar fazendo um grande esforço.
            Lembrou que ao chegar ao escritório, todos o olhavam com cara de surpresa, iniciaram então os seus sintomas de taquicardia. Foi correndo pegar um copo de água.
            Eles sabiam, é claro que eles sabiam! Os olhos de todos estavam julgando Armando. Ele tentava tomar a água, mas a tremedeira de sua mão não permitia.
            Se todos que trabalhavam em sua empresa já sabiam do seu romance secreto, sua mulher já deveria estar sabendo de tudo também, pensou. Era o fim, sabia que perderia tudo, sua família nunca o perdoaria.
            De repente, seu celular começou a tocar, era sua mulher. Ele não podia atender, tinha medo do que ela poderia dizer para ele, mas ela insistia e ligava sem parar.
            Sabia que nessas circunstâncias não conseguiria viver, aquilo tudo era muito difícil de encarar. Saiu correndo de sua sala, entrou no elevador e subiu para o terraço do prédio. Já sabia o que deveria fazer.
            Súbito, Armando não pensou duas vezes, foi para a beirada do prédio, mas não se deixou cair na tentação de olhar para baixo. Respirou fundo e mergulhou em direção à calçada do hall de entrada de sua empresa.
            Seu funeral ocorreu logo no dia seguinte. Sua esposa estava inconsolável, não conseguia compreender porque seu amado marido poderia cometer algo tão terrível, nunca suspeitou que ele pudesse estar infeliz.
            Quando chegou em casa, a mulher de Armando foi direto para seu quarto, não queria ver ninguém naquele momento. Assim que entrou, fechou a porta e começou a tirar seus sapatos. Por alguns instantes, tinha conseguido parar de chorar, mas foi só olhar para o jornal, do dia anterior, que estava em cima de sua cama, que desmoronou novamente.
            Ela nunca entenderia o que havia acontecido e sabia que em sua cabeça, sempre moraria a dúvida. Olhando para a foto de Armando, que estava na primeira capa do jornal, começou a sorrir ao mesmo tempo em que soluçava tentando segurar o choro.
            A manchete do jornal dizia que a empresa de segurança de Armando tinha sido prestigiada com um dos maiores prêmios que uma empresa poderia sonhar em ganhar, e a foto que acompanhava a reportagem era dele, em frente ao prédio principal de sua empresa, com um grande sorriso estampado no rosto.
            Inconsolada, sua mulher acariciava a foto do jornal, e a única coisa que conseguia pensar, naquele momento, era a tristeza de não ter tido tempo de se despedir de seu amado e nem de tê-lo visto comemorando uma das premiações mais importantes de sua vida.

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com

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