"Só sei que era alguém que há muito tempo esteve comigo, mas que eu não deveria ter visto, que eu não precisava rever, porque foi alguém que um dia abanou a cabeça e saiu do meu campo de visão, há muito tempo". Trecho de Estorvo
Estorvo, primeiro romance do aclamado compositor Chico Buarque, foi publicado em 1991 e comercializado em dez países. O romance recebeu o Prêmio Jabuti 1992 de melhor livro de ficção e vendeu 7.500 exemplares nos três primeiros dias depois de seu lançamento.
Narrado em primeira pessoa, Estorvo apresenta poucos dias na vida de um homem anônimo que vaga pelas ruas de uma cidade grande em uma fuga sem fim, com medo do desconhecido, cansado da rotina e dos personagens de sua vida: sua mãe, irmã, ex-mulher e amigos. Como o título do livro claramente sugere, esse homem é uma representação crua de estorvo da sociedade. Indesejado por todos à sua volta, ele é um peso que faria os outros mais leves se simplesmente deixasse de existir.
Estorvo projeta "um desespero subjetivo e crônica do cotidiano", se mantendo constantemente no limite entre o sonho e a vigília. A primeira cena do livro, do olho mágico que filtra o rosto do visitante misterioso, talvez seja a melhor metáfora da visão deformada com que o narrador, e o leitor com ele, seguirá sua odisséia.
![]() |
| Chico Buarque de Hollanda |
O romance de estréia de Chico tem um ritmo intenso e regular, pesado, poético, rápido e lento ao mesmo tempo. Poucas informações do passado do protagonista são reveladas e o enredo começa já permitindo a invasão do leitor no universo do personagem principal - o leitor e o protagonista juntos miram pelo olho mágico, temendo um estranho sem rosto verdadeiro. O livro é desses de ser lido em um fôlego só, curto e sedutor. A fuga do protagonista prende o leitor até o final, quando ele pode finalmente repousar, apesar de o fim ser injustificado e inconclusivo. Um bom livro, embora superestimado.
Título: Estorvo
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Ano de Lançamento: 1991
Número de páginas: 152
















"Superestimado". Esse adjetivo descreve bem esse livro assim como grande parte da obra de Chico Buarque.
ResponderExcluir