Pensar em literatura portuguesa atualmente é pensar em José Saramago. E pensar sobre Saramago é ser automaticamente lembrado dos renomados livros Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento e o O Evangelho segundo Jesus Cristo.No entanto, o autor ganhador do prêmio Nobel de literatura de 1998 escreveu outros 14 romances, além de peças de teatro, crônicas, contos, memórias e poemas. Dentre esses trabalhos, se encontra As Intermitências da Morte, obra que impressiona o leitor com a sua forte crítica à sociedade moderna.
O livro começa com a frase "No dia seguinte ninguém morreu" e a partir daí Saramago discorre sobre o sentido (ou falta desse) da existência humana, amor, vida e morte.
A história se passa em um país fictício e relata as reações do governo, Igreja, mídia, filósofos, economistas, casas de funerária, hospitais, seguradoras e das famílias com parentes muito doentes, quando a Morte entra de greve e ninguém mais consegue morrer naquele país. Saramago relata os paradoxos da ausência da morte e o dilema que envolve o que fazer com os moribundos que nem podem morrer nem voltar a viver.
Quando a Morte decide retornar com os seus serviços, ela envia uma carta à uma emissora de TV, anunciando que todos voltarão a morrer normalmente e que, a partir de então, todas as pessoas serão comunicadas de suas mortes através de uma carta, enviada uma semana antes da data derradeira. Nesse sistema, todo mundo teria os mesmos sete dias para colocar a vida em dia, antes de morrer. O uso de cartas, entretanto, é tão calamitoso quanto a própria greve da Morte, tendo em vista que muito facilmente uma correspondência pode se extraviar no nosso falho sistema de correio.
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| José Saramago |
Em As Intermitências da Morte, Saramago é ainda mais sarcástico do que o habitual, indo muito além das reflexões existenciais ao escrever um enredo envolvente que nos faz admitir que a morte é, na verdade, bem-vinda na vida de todos, sendo a morte parte da vida, tanto o quanto o nascimento, o primeiro amor, ou a doença.
O livro é extremamente bem escrito, sempre fiel ao estilo do Saramago: com muito bom humor e ironia, pontuacão irregular, diálogos estranhamente formatados e com muito uso de metalinguagem, em que Saramago interrompe a narrativa para discutir com o leitor o próprio fluxo do seu enredo ou o léxico. Exatamente como o crítico e escritor Gabriel Perisséu falou, é importante "saborear a sabedoria com que [Saramago] aborda a personificação da morte e a necessidade que esta sente (feminina ela se apresenta) de ser amada". Sem dúvida, um dos melhores livros do controverso escritor português.
Título: As Intermitências da Morte
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2005
Número de Páginas: 208
















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