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17 de setembro de 2013

Não se fazem mais passados como antigamente #20 – O Chefe




Born to Run_Bruce Springsteen
Gravadora: Columbia
Lançamento: 25 de agosto de 1975
Nota: 10/10 



               

                Com que régua se mede um sucesso? Discos de platina? Número de álbuns? Aparições no Faustão?
                Cada um usa as suas, e por isso os resultados são tão díspares. Led Zeppelin é o maior pra uns, já que as músicas são “celestiais”. Pela mesma razão, Pink Floyd tem a coroa pra outros. Beatles eram revolucionários e, por isso, uma multidão diz que melhores que ele não há. Isso entre os britânicos.
                Agora, entre os americanos, o “chefe” é unânime. Hors concours. Afinal de contas, quem além dele conseguiu criar um álbum tão perfeito que criou um ritmo próprio?

*

                Bruce Springsteen. Pra muitos, um cantor. Para outros, um cronista.
                É isso que ele prova desde 1973 quando, saindo de um circuito minúsculo de shows em bares, fundo de mercado e bailes no litoral do estado de Nova Jérsei, ele junta os membros de sua banda de apoio – a E Street Band, que falaremos mais pra frente – e lança o primeiro álbum. De longe o principal da música americana no ano (ao lado do début doAerosmith), Greetings from Asbury Park,N.J. lembra muito o som folk de Bob Dylan, que narra cenas e que mantém batidas diferentes, ora calmas, ora parecendo um trovão, como em Lost in the Flood. A temática se segue no segundo álbum, no mesmo ano, chamado TheWild, the innocent and the E Street Shuffle, referência na música americana, com um certo flerte para o jazz e o funk. Dele saíram frutos como a belíssima Incidenton 57th street e a até cômica Rosalita (come out tonight), que fechou os shows dele por um bom tempo.
                Apesar da crítica entusiasmada, o sucesso comercial foi fraco, o que acabou criando em Bruce um monstro interior que o guiava à perfeição. O trabalho seguinte entrou para os anais da música desde antes de existir: só de produção foram dois anos, sendo 14 meses apenas para a faixa-título! O uso da refinadíssima técnica do Wall of sound, que a gente explicou há alguns posts atrás, aumentou exponencialmente os custos de produção, fazendo com que Bruce demitisse seu velho produtor, Mike Appel, e apostasse suas fichas no ex-jornalista Jon Landau - trabalharam juntos até 1992. A gravadora já fungava no cangote de ambos, fazendo com que estes escondessem as contas da gravadora até algum tempo depois do lançamento.
                Se valeu a pena? Ptmrd. E como.
*
                Todos os 39 minutos e 26 segundos que apareceram nas prateleiras no dia 25 de agosto de 1975 são mágicos. Antes as canções eram impessoais, depois passaram a fazer perguntas. Com Springsteen, a música extrapola a canção e melodia, e começa, majestosamente, a contar histórias. E não histórias quaisquer, mas história de americanos comuns. De gostos de gente comum – carros, garotas, trabalho. De gente que ouvia Bruce Springsteen. Exemplo é a cena descrita nos primeiros versos da melhor faixa de abertura em todos os tempos, Thunder Road:

The screendoor slams, Mary's dress waves
Like a vision she dances across the porch
As the radio plays
Roy Orbison singin' for the lonely
Hey that's me and I want you only
Don't turn me home again I just can't face myself alone again
Ou:
A porta bate, o vestido de Mary bate
Como uma visão, ela dança pela porta
Enquanto o rádio toca
Roy Orbinson está cantando pelos solitários
Hey, sou eu e só quero que você
Não me mande pra casa de novo, não posso me ver sozinho novamente

Nos anos 70 isso era sexy né... (Fonte: Reprodução)
                O disco tem dez canções, que tratam da vida americana: das brigas de rua e das gangues (o soul de Tenth avenue freeze-out); do cansaço da vida (em Night) e também do submundo (o tom romântico de Meet across the river). Porém as três principais canções do álbum provocaram um furor capaz de fazer a música americana praticamente sair pelo seu próprio umbigo – elas reinventaram, brevemente, a música americana.
                Bruce não fez isso sozinho. O diferencial da sonoridade tipicamente americana dos seus trabalhos e shows era a banda de apoio – a E Street Band. A banda de apoio mais inventiva de todos os tempos (ao lado da Mothers of Invention que acompanhava Frank Zappa e a Vitória-Régia de Tim Maia) também era um marco anos-luz a frente do seu tempo: o guitarrista, Steven Van Zandt, é descendente de italianos. O primeiro baterista, Vini Lopéz, era filho de latinos e o substituto, Max Wienberg, é o mago das baquetas judias. Clarence Clemmons era um saxofonista negro de 2 metros de altura. Numa época de preconceito racial e uma forte divisão na sociedade americana, a capa em que Bruce se apoia em Clarence marcou toda uma geração e marcou uma das mais duradouras parcerias na música – Clemmons morreu em 2011.
                Fechando o lado A existe Backstreets. Com seis minutos, ela tem solos enérgicos e um clímax que, em shows ao vivo, deve ser o momento mais emocionante da vida de uma pessoa. O tema da canção? Novamente, carros, corridas, o amor do narrador – em primeira pessoa, como Bob Dylan ensinou . O álbum, em si, tem os pontos altos e os grandes momentos de um blockbuster americano.
                Abrindo o lado B, os quatro minutos e meio de Born to Run. Se ela demorou um ano e dois meses para ficar pronta, talvez tenha sido tempo suficiente. Carros, beijos, o amor que fica na autoestrada, tudo se entrelaça numa estrutura que, literalmente, corre. Um solo de guitarra que mescla com um solo de sax e uma letra (novamente) emocionante. A primeira vez que ouvi a canção, de olhos fechados, a imagem me veio à mente: dirigindo um Corvette, com aquela gata no lado, correndo acima da velocidade, com os cabelos voando (tudo bem, ao abrir os olhos o metrô abriu as portas e fui empurrado pro corredor. Mas o sonho permaneceu).
                E, fechando o disco, Jungleland. Fugindo aos padrões do álbum todo, com nove minutos e meio, é uma rapsódia de eventos: a gangue junta, a reviravolta, o fim melancólico de cada um dos membros citados na música, com uma letra raivosa. Como a banda de Bruce continha um dos melhores saxofonistas de sua geração, coube para Clarence Clemmons o solo de dois minutos e meio, um belo motor para sexo.
*
                Foi o primeiro álbum do cantor que eu ouvi. Sendo um garoto padrão que só sabia cantar Born in the U.S.A., sempre estranhei como esse álbum aparecia nas listas dos 20 maiores de todos os tempos. Ou como os críticos nunca relutaram em dar 5 estrelas. Depois da primeira vez que eu ouvi, finalmente entendi o que Bruce representa para a música americana.
                Graças aos primeiros álbuns do cantor – e este em especial – um novo filão nasceu: o heartland rock, com letras relacionadas aos carros, à vida cotidiana numa América onde o american way of life raramente existia. Sem esse sucesso, nem John Mellencamp, nem Bob Seger, muito menos Tom Petty teriam sucessos como caipiras roqueiros.
                A partir de 1975, Bruce mostrou como um artista deve se portar: shows que duram em média, mais de 3 horas; álbuns excelentes (como o seguinte, Darkness in the Edge of Town) e, pela primeira vez em 25 anos, faz shows no Brasil - amanhã, no Espaço das Américas em SP -  e sábado, dia 21, no palco Mundo do Rock in Rio. É a chance de que volte a ser o grande ídolo de garotas e garotos como foi nos anos 80.

                E é a chance, irrefutável, de provar que eu sou (muito) suspeito pra falar dele.




Por: Guilherme Mendes
De: Carapicuíba - SP
Email: guilherme@revistafriday.com

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