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13 de janeiro de 2014

Mulheres no topo do mundo



Pobre e desempregado, Durval lamenta sua sina enquanto assiste a um jogo do Cruzeiro. Filho de militar, herdou do pai os costumes do século passado: mulher deve ficar em casa, cuidar das crianças, lavar a louça, cozinhar para os amigos, passar a roupa. Coitado do Durval, nasceu no século errado. Agora é ele quem fica em casa, fazendo as vezes da esposa.

Não vai poder acompanhar o segundo tempo do jogo, tem louça na pia e a mulher não demora. Nessas horas entra em desespero, percebe que as mulheres estão cada vez mais perto de dominar o mundo. Tem medo, exagera. Não entende a necessidade de mudança, de equilíbrio. Passa a mão no controle remoto, desliga a TV. Afinal, não é ele quem paga as contas.

Enquanto lava a louça, reflete sobre a vida. Sua expressão facial é de um velho rabugento, embora conte apenas trinta anos. Será que eu sou machista? Pensa por alguns instantes. Sônia, a mulher, tem esperança de que algum dia ele mude. Ele, por sua vez, deseja que em breve ela se canse. Tudo é questão de grana, ele pontua. O currículo não ajuda, carece de qualificação. Não tem curso superior, nem muita experiência. Se continuar assim, será o melhor lavador de louça.

Sônia chega em casa, cansada, dia tenso. Durval se apresenta na porta com os braços abertos, esperando abraço e beijo – quer carinho da mulher amada. Não dá tempo. Ela vai sair com as amigas do trabalho, com a turma feminista, contar caso, pensar no futuro. Durval se entristece, receia não fazer parte dos planos da mulher. Briga, faz cara feia. Ela não dá bola. Arruma-se e vai embora.

Durval pensa no pai, na vida boa que ele levava. Naquele tempo as coisas eram diferentes, melhores. Hoje é tudo ao avesso, mulher não respeita o marido, não cumpre com os deveres domésticos. Reconhece que a culpa é dele: se tivesse dinheiro não passava por isso. Os homens ficaram preguiçosos, perderam no seu próprio jogo. Um bom general nunca baixa a guarda. Tolos.

Sônia, rodeada pelos amigos, homens e mulheres, fala livremente sobre o marido: tenho um machista em casa, desses bem ranzinzas. Outra comenta que o pai é casca grossa, mas que logo põe ele na linha. Dão risada. Estão no topo do mundo, observando a vida. Tudo é questão de perspectiva: Durval é machista e se sente oprimido, mas não entende que ele é quem oprime. E a sociedade vive com esses novos complexos e síndromes. 

De: Serro - MG
Email: valter.camilo@sga.pucminas.br

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