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VITRINE: O universo feminino de Isadora Almeida

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17 de fevereiro de 2014

A puta que eu mesmo pari


Nasci ali, na incubadora do orgasmo. Criei-me como muitas, dependente e inválida. O mundo material surgiu logo; me coloquei ao centro, astro único, completo e perfeito. Logo dei meus primeiros passos e com eles os primeiros erros.

Nada foi tão simples desde que eu me lembro. De centro do universo me converti em parte, pequena, indefesa e carente. Careta. Meu umbigo, perdido, girando em órbitas diversas, procurando algum esconderijo, algum refúgio.

Eu e centenas de milhares de outras. “Eus” em todos os cantos. Um ser igual, mas diferente, cogitando planos, cultivando sonhos. Foi quando levei o primeiro soco, bem na boca do estômago. A vida bate com força.

Foi por essa época que descobri o meu corpo. A língua, depois a boca. Sai pelo mundo gritando, maldizendo os homens. Cretinos. Nasci bicho preso, sem direitos, sem liberdade, sem sentido.

O mundo é uma merda, pensei comigo. Nessa dialética, pari uma puta. Puta que revida ao soco da vida. Puta de bate tão forte quanto. Puta que grita e que leva porrada em público, porrada de homens e de outras mulheres.

Uma puta que não faz poesia comedida, que não diz o politicamente correto. Que não pactua com credos consumistas. Puta que vadia pela madrugada, escrevendo cartazes em letras gigantes. Puta que se veste como puta, não apenas no corpo, mas na alma.

Puta que cansou de levar porrada, essa é a verdade. Puta que diz “foda-se” ao machismo. Puta que acordou pro mundo. Puta que ainda cultiva seus sonhos. Mas, acima de tudo, puta que é dona dos seus planos, dona da sua vida.

De: Milho Verde - Minas Gerais
Email: valter.camilo@sga.pucminas.br

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13 de janeiro de 2014

Mulheres no topo do mundo



Pobre e desempregado, Durval lamenta sua sina enquanto assiste a um jogo do Cruzeiro. Filho de militar, herdou do pai os costumes do século passado: mulher deve ficar em casa, cuidar das crianças, lavar a louça, cozinhar para os amigos, passar a roupa. Coitado do Durval, nasceu no século errado. Agora é ele quem fica em casa, fazendo as vezes da esposa.

Não vai poder acompanhar o segundo tempo do jogo, tem louça na pia e a mulher não demora. Nessas horas entra em desespero, percebe que as mulheres estão cada vez mais perto de dominar o mundo. Tem medo, exagera. Não entende a necessidade de mudança, de equilíbrio. Passa a mão no controle remoto, desliga a TV. Afinal, não é ele quem paga as contas.

Enquanto lava a louça, reflete sobre a vida. Sua expressão facial é de um velho rabugento, embora conte apenas trinta anos. Será que eu sou machista? Pensa por alguns instantes. Sônia, a mulher, tem esperança de que algum dia ele mude. Ele, por sua vez, deseja que em breve ela se canse. Tudo é questão de grana, ele pontua. O currículo não ajuda, carece de qualificação. Não tem curso superior, nem muita experiência. Se continuar assim, será o melhor lavador de louça.

Sônia chega em casa, cansada, dia tenso. Durval se apresenta na porta com os braços abertos, esperando abraço e beijo – quer carinho da mulher amada. Não dá tempo. Ela vai sair com as amigas do trabalho, com a turma feminista, contar caso, pensar no futuro. Durval se entristece, receia não fazer parte dos planos da mulher. Briga, faz cara feia. Ela não dá bola. Arruma-se e vai embora.

Durval pensa no pai, na vida boa que ele levava. Naquele tempo as coisas eram diferentes, melhores. Hoje é tudo ao avesso, mulher não respeita o marido, não cumpre com os deveres domésticos. Reconhece que a culpa é dele: se tivesse dinheiro não passava por isso. Os homens ficaram preguiçosos, perderam no seu próprio jogo. Um bom general nunca baixa a guarda. Tolos.

Sônia, rodeada pelos amigos, homens e mulheres, fala livremente sobre o marido: tenho um machista em casa, desses bem ranzinzas. Outra comenta que o pai é casca grossa, mas que logo põe ele na linha. Dão risada. Estão no topo do mundo, observando a vida. Tudo é questão de perspectiva: Durval é machista e se sente oprimido, mas não entende que ele é quem oprime. E a sociedade vive com esses novos complexos e síndromes. 

De: Serro - MG
Email: valter.camilo@sga.pucminas.br

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