Pobre e desempregado, Durval lamenta sua sina enquanto assiste a
um jogo do Cruzeiro. Filho de militar, herdou do pai os costumes do século
passado: mulher deve ficar em casa, cuidar das crianças, lavar a louça,
cozinhar para os amigos, passar a roupa. Coitado do Durval, nasceu no século
errado. Agora é ele quem fica em casa, fazendo as vezes da esposa.
Não vai poder acompanhar o segundo tempo do jogo, tem louça na pia
e a mulher não demora. Nessas horas entra em desespero, percebe que as mulheres
estão cada vez mais perto de dominar o mundo. Tem medo, exagera. Não entende a
necessidade de mudança, de equilíbrio. Passa a mão no controle remoto, desliga
a TV. Afinal, não é ele quem paga as contas.
Enquanto lava a louça, reflete sobre a vida. Sua expressão facial
é de um velho rabugento, embora conte apenas trinta anos. Será que eu sou machista? Pensa
por alguns instantes. Sônia, a mulher, tem esperança de que algum dia ele mude.
Ele, por sua vez, deseja que em breve ela se canse. Tudo é questão de grana,
ele pontua. O currículo não ajuda, carece de qualificação. Não tem curso
superior, nem muita experiência. Se continuar assim, será o melhor lavador de
louça.
Sônia chega em casa, cansada, dia tenso. Durval se apresenta na
porta com os braços abertos, esperando abraço e beijo – quer carinho da mulher
amada. Não dá tempo. Ela vai sair com as amigas do trabalho, com a turma
feminista, contar caso, pensar no futuro. Durval se entristece, receia não
fazer parte dos planos da mulher. Briga, faz cara feia. Ela não dá bola.
Arruma-se e vai embora.
Durval pensa no pai, na vida boa que ele levava. Naquele tempo as
coisas eram diferentes, melhores. Hoje é tudo ao avesso, mulher não respeita o
marido, não cumpre com os deveres domésticos. Reconhece que a culpa é dele: se
tivesse dinheiro não passava por isso. Os homens ficaram preguiçosos, perderam
no seu próprio jogo. Um bom general nunca baixa a guarda. Tolos.
Sônia, rodeada pelos amigos, homens e mulheres, fala livremente
sobre o marido: tenho um machista em casa, desses bem ranzinzas. Outra comenta
que o pai é casca grossa, mas que logo põe ele na linha. Dão risada. Estão no topo
do mundo, observando a vida. Tudo é questão de perspectiva: Durval é machista e
se sente oprimido, mas não entende que ele é quem oprime. E a sociedade vive
com esses novos complexos e síndromes.
De: Serro - MG
Email: valter.camilo@sga.pucminas.br
















0 comentários: