Imagem: linkatual.com.br
Astolfo sempre foi um sujeito que acreditava nas
possibilidades que estavam a seu favor. Anualmente e religiosamente, apostava
nos mesmos números na Mega Sena da Virada. Acreditava piamente que, um dia,
aqueles números seriam sorteados e ele se tornaria o mais novo milionário
brasileiro. E como em todos os outros anos, apostou, novamente, nos seus números
sagrados.
Naquele dia, chegou ao escritório com um sorriso grande e
uma postura que transpirava confiança. Astolfo sentia que sua vez de ganhar
estava mais próxima do que nunca.
Quando sentou em sua mesa para começar a trabalhar, Jeremias,
seu colega de trabalho, logo o interpelou:
- Que felicidade toda é essa? – soltou uma risada leve –
Dormiu com o palhacinho essa noite, é?
Astolfo riu da piadinha sem graça, juntamente com
Jeremias, esse era o protocolo social que deveria seguir antes de poder
explicar a origem de sua felicidade momentânea.
- Sei que você não acredita nessas coisas, Jeremias, mas
hoje fiz o meu jogo da Mega Sena da Virada e estou muito confiante de que dessa
vez eu vou ganhar. – Astolfo tirava do bolso o bilhete com os números em que
apostou enquanto se explicava para o Jeremias.
- Ah, não acredito... – Disse Jeremias enquanto cruzava
os braços em uma demonstração de total descrença – Você é um cara tão
inteligente, Astolfo. Não consigo acreditar como você se ilude com essas
coisas. Todo mundo sabe que a Mega Sena é forjada.
- Acontece, Jeremias, que a questão é mais simples do que
parece. Eu jogo o mesmo número há vinte e cinco anos, e pela matemática, a chance
do meu número sair como o premiado está cada vez maior. Uma hora ou outra ele
terá que ser sorteado. – mostrava seu bilhete para o Jeremias ao mesmo tempo em
que falava. – Está vendo? Esse é o meu número. Estou muito confiante que esse
será o número vencedor deste ano.
Jeremias soltou um sorriso meio amarelo e resolveu não
prolongar muito aquela conversa com Astolfo, sabia que nunca conseguiria mudar
sua cabeça.
Sem que Astolfo pudesse imaginar, Jeremias não conseguiu
tirar da cabeça toda aquela conversa que teve com seu colega. De uma coisa
Astolfo estava certo: a possibilidade de ganhar o prêmio, jogando sempre o
mesmo número, aumentava a cada tentativa.
Quando chegou a sua casa, Jeremias contou para sua esposa
toda a conversa que teve com Astolfo.
Com a justificativa de ser apenas curiosa, Angélica
perguntou ao seu marido que número tão certeiro seria esse. Jeremias, que havia
decorado o número de Astolfo, o ditou para sua esposa sem dúvida alguma sobre a
sequência.
No dia seguinte, Jeremias, sem contar para ninguém, nem
mesmo para sua esposa, foi até a casa lotérica que se encontrava perto de sua
casa e jogou os mesmos números que o Astolfo jogara.
Já Angélica, sempre muito linguaruda, resolveu contar
para suas vizinhas que um colega de trabalho de seu marido tinha descoberto
qual o número que seria sorteado na próxima mega sena. Sem titubiar, todos
correram para a casa lotérica mais próxima e apostaram no mesmo número.
Astolfo não conseguira dormir nas últimas duas semanas,
tamanha era a ansiedade que sentia ao pensar que poderia ganhar o prêmio. Após
a virada do ano, foi então conferir quais os números que haviam sido sorteados.
A felicidade era tanta que não sabia o que fazer naquele
momento. Astolfo, finalmente, havia ganhado o prêmio da virada. Seu número
tinha sido o vencedor. Após vinte e cinco anos seu número se tornou o ganhador.
Astolfo pegou seu bilhete e correu em disparada para a
casa lotérica, queria retirar seu prêmio o mais rápido possível. Quando chegou,
se assustou com a multidão que se juntava na porta, mas não se importou muito,
queria apenas receber o que era seu por direito.
Depois de alguns minutos entre empurrões para conseguir
chegar ao caixa da casa lotérica, foi logo soltando seu anúncio de felicidade:
- Moça! Moça! Por favor, quero fazer a retirada do prêmio
da Mega Sena da Virada. Fui o vencedor! Aqui está meu bilhete.
Com um olhar frio e uma demonstração de pouca paciência,
a atendente do caixa, olhou por cima de seus óculos e respondeu:
- Você está vendo toda essa gente que se encontra aqui? –
Astolfo balançou a cabeça em sinal afirmativo – Pois então, todos estão aqui
pelo mesmo motivo que o senhor. Então faça o favor de aguardar o seu lugar na
fila.
Astolfo ficou meio confuso, não entendia muito bem o que
ela queria dizer com aquela frase.
- Como assim? O que você está falando? Eu sou o ganhador
do prêmio...
Antes que ele pudesse finalizar sua frase, ela,
bruscamente o interrompeu e atropelou sua fala:
- Meu bem, você ganhou o prêmio juntamente com outras
setenta pessoas pela cidade a fora. Então, me faça o favor de aguardar a sua
vez na fila para fazer a retirada da sua parte.
Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com
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