6 de janeiro de 2014

Crônicaria de Bolso - #6 Mega Sena da Virada


Imagem: linkatual.com.br

Astolfo sempre foi um sujeito que acreditava nas possibilidades que estavam a seu favor. Anualmente e religiosamente, apostava nos mesmos números na Mega Sena da Virada. Acreditava piamente que, um dia, aqueles números seriam sorteados e ele se tornaria o mais novo milionário brasileiro. E como em todos os outros anos, apostou, novamente, nos seus números sagrados.
Naquele dia, chegou ao escritório com um sorriso grande e uma postura que transpirava confiança. Astolfo sentia que sua vez de ganhar estava mais próxima do que nunca.
Quando sentou em sua mesa para começar a trabalhar, Jeremias, seu colega de trabalho, logo o interpelou:
- Que felicidade toda é essa? – soltou uma risada leve – Dormiu com o palhacinho essa noite, é?
Astolfo riu da piadinha sem graça, juntamente com Jeremias, esse era o protocolo social que deveria seguir antes de poder explicar a origem de sua felicidade momentânea.
- Sei que você não acredita nessas coisas, Jeremias, mas hoje fiz o meu jogo da Mega Sena da Virada e estou muito confiante de que dessa vez eu vou ganhar. – Astolfo tirava do bolso o bilhete com os números em que apostou enquanto se explicava para o Jeremias.
- Ah, não acredito... – Disse Jeremias enquanto cruzava os braços em uma demonstração de total descrença – Você é um cara tão inteligente, Astolfo. Não consigo acreditar como você se ilude com essas coisas. Todo mundo sabe que a Mega Sena é forjada.
- Acontece, Jeremias, que a questão é mais simples do que parece. Eu jogo o mesmo número há vinte e cinco anos, e pela matemática, a chance do meu número sair como o premiado está cada vez maior. Uma hora ou outra ele terá que ser sorteado. – mostrava seu bilhete para o Jeremias ao mesmo tempo em que falava. – Está vendo? Esse é o meu número. Estou muito confiante que esse será o número vencedor deste ano.
Jeremias soltou um sorriso meio amarelo e resolveu não prolongar muito aquela conversa com Astolfo, sabia que nunca conseguiria mudar sua cabeça.
Sem que Astolfo pudesse imaginar, Jeremias não conseguiu tirar da cabeça toda aquela conversa que teve com seu colega. De uma coisa Astolfo estava certo: a possibilidade de ganhar o prêmio, jogando sempre o mesmo número, aumentava a cada tentativa.
Quando chegou a sua casa, Jeremias contou para sua esposa toda a conversa que teve com Astolfo.
Com a justificativa de ser apenas curiosa, Angélica perguntou ao seu marido que número tão certeiro seria esse. Jeremias, que havia decorado o número de Astolfo, o ditou para sua esposa sem dúvida alguma sobre a sequência.
No dia seguinte, Jeremias, sem contar para ninguém, nem mesmo para sua esposa, foi até a casa lotérica que se encontrava perto de sua casa e jogou os mesmos números que o Astolfo jogara.
Já Angélica, sempre muito linguaruda, resolveu contar para suas vizinhas que um colega de trabalho de seu marido tinha descoberto qual o número que seria sorteado na próxima mega sena. Sem titubiar, todos correram para a casa lotérica mais próxima e apostaram no mesmo número.
Astolfo não conseguira dormir nas últimas duas semanas, tamanha era a ansiedade que sentia ao pensar que poderia ganhar o prêmio. Após a virada do ano, foi então conferir quais os números que haviam sido sorteados.
A felicidade era tanta que não sabia o que fazer naquele momento. Astolfo, finalmente, havia ganhado o prêmio da virada. Seu número tinha sido o vencedor. Após vinte e cinco anos seu número se tornou o ganhador.
Astolfo pegou seu bilhete e correu em disparada para a casa lotérica, queria retirar seu prêmio o mais rápido possível. Quando chegou, se assustou com a multidão que se juntava na porta, mas não se importou muito, queria apenas receber o que era seu por direito.
Depois de alguns minutos entre empurrões para conseguir chegar ao caixa da casa lotérica, foi logo soltando seu anúncio de felicidade:
- Moça! Moça! Por favor, quero fazer a retirada do prêmio da Mega Sena da Virada. Fui o vencedor! Aqui está meu bilhete.
Com um olhar frio e uma demonstração de pouca paciência, a atendente do caixa, olhou por cima de seus óculos e respondeu:
- Você está vendo toda essa gente que se encontra aqui? – Astolfo balançou a cabeça em sinal afirmativo – Pois então, todos estão aqui pelo mesmo motivo que o senhor. Então faça o favor de aguardar o seu lugar na fila.
Astolfo ficou meio confuso, não entendia muito bem o que ela queria dizer com aquela frase.
- Como assim? O que você está falando? Eu sou o ganhador do prêmio...
Antes que ele pudesse finalizar sua frase, ela, bruscamente o interrompeu e atropelou sua fala:
          - Meu bem, você ganhou o prêmio juntamente com outras setenta pessoas pela cidade a fora. Então, me faça o favor de aguardar a sua vez na fila para fazer a retirada da sua parte.

Por: Mariana Cardoso Magalhães
De: Belo Horizonte - MG
Email: m.cardosomagalhaes@gmail.com


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