
(Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd)_Lynyrd Skynyrd
Gravadora: MCA
Lançamento: 13 de Agosto de 1973
Nota: 8,5 / 10
Este post está
programado para a tarde de Natal, para pouco antes do pino do peru Sadia
comprado pela sua mãe e assado por sua tia por parte de pai e avó subir. Não
sabemos que horas vocês lerão isso, mas nossas estatísticas dizem que será na
tarde de Natal, enquanto passa o filme sobre Jesus na Globo e o filme sobre
Jesus também vai passar na Record, Band, canal de compras e na BBC. Vai ser
nessa hora em que você não vai ter atualizações no facebook, ninguém pra responder
no whatsapp e as fotos no instagram estarão vistas e devidamente curtidas. É
nessa hora de puro e extremo tédio em que você vai parar na nossa coluna sobre
um dos grandes álbuns da terra do Tio Sam.
E onde,
em nome da coluna e da Revista Friday, eu passo pra deixar um feliz Natal.
*
Mas sem
chorumelas: tem gente que faz sucesso (90% dos artistas). Tem gente
que faz muito sucesso e inova no que faz (foi assim com, por exemplo, o Thriller e o seu intéprete, Michael
Jackson). Mas, de tudo o que eu já ouvi, é difícil achar algo que, na inocência
de um álbum de estreia, ajuda a cimentar um dos símbolos americanos. Pois, até então,
pouca coisa representava os caipiras americanos.
Vamos
lá: desde a guerra civil americana (norte contra sul, o fim da escravidão e
tudo aquilo que você viu no filme “Lincoln”), os sulistas americanos,
escravocratas e perdedores da batalha, ficaram marcados por símbolos puramente
sociais e desprezíveis – a Ku Klux Klan e os caras vestidos de “Zé Gotinha” são
os principais. E, no crescente cenário musical do século XX, os branquelos
ainda viam os seus ex-escravos negros virarem o mundo da música de
ponta-cabeça: Robert Johnson criou Crossroads,
o blues definitivo; Little Richard mostrava ao mundo o que era o Rock and Roll
e, já nos anos 60, ninguém segurava Jimi Hendrix ou Chuck Berry.
Os
brancos exploraram durante anos os negros, e não seria agora que eles deixariam
de fazer isso: no final dos anos 60, o blues
tradicional dos negros ganhou sua versão branca, com guitarras mais potentes e
canções menos melódicas em temas que remetiam ao caipira sulista, ou redneck (“pescoço vermelho”, na tradução
livre), como eram conhecidos. Os primeiros a chegar nesse novo ritmo eram o
Creedence, com coisas mais elétricas como Bornin the Bayou, e a Allman Brothers Band, com uma maior inspiração de jazz e
mais erudição, que é sentida na pele em canções como Whipping Post e MidnightRider.
Mas o
rock sulista não seria genuíno sem esses sete caras e a banda de nome difícil.
Jacksonville,
Florida. Década de 1960.
O diretor da escola dos membros
suspende, pelo uso de cabelo longo, o vocalista, o guitarrista e o baterista de
uma banda especialista em covers de Eric Clapton e outras bandas. Em sua
homenagem, a banda, que se chamava One Percent, passaria a ser conhecida como
Leonard Skinner. Mas, para evitar problemas, se trocaram algumas letras por “Y”
e o resultado é o Lynyrd Skynyrd que todo mundo já ouviu falar na vida.
Em 1973 a banda recebe um convite
da gravadora MCA para entrar no estúdio e, 35 dias depois, encerram-se as gravações
do primeiro disco da banda. Já prevendo a dificuldade que seria pronunciar o nome da banda, a explicação vem no título (leia-se "lãnãrd skinêrd" ou algo assim). Mesmo
chegando ao mercado cinco anos depois do primeiro disco do Creedence e quatro
depois da estreia arrasadora do Allman, o Lynyrd tomou a vanguarda do
movimento. E o segredo foi um misto de patriotismo com os solos mais potentes
que o tio Sam já tinha visto.
O lado A do disco é mais voltado
para as canções mais macias, as famosas baladas de rock de se tocar na rádio. E
realmente Tuesday’s Gone e Simple Man estouraram nas paradas. O
segredo delas é uma performance que a guitarra quase nunca perde o estrelato,
seja em arpejos ou em solos bastante dramáticos e improvisados. Numa banda de
sete, três eram os responsáveis pela guitarrada: Garry Rossington, Ed King e o
grandalhão Allen Collins, que a gente fala mais pra frente.
Enquanto Creedence, Allman e
outras bandas do gênero Southern bebiam
na fonte da música negra e não negavam isso, o Skynyrd prossegui com o orgulho
em alta. Entre a maior parcela dos fãs estavam motoqueiros e fazendeiros de
estados do centro sul americano como Georgia, Louisiana, Mississipi e Tennessee.
Para fortalecer ainda mais a imagem com o público, o vocalista da banda, Ronnie
Van Zandt, hasteava a bandeira dos
confederados, que batia ainda mais no orgulho dos branquelos. Finalmente
havia alguma identidade aos descendentes dos escravocratas (que não envolvesse
queimar cruzes e maltratar negros).
Mas a banda sabia como agradar a
todos falando de temas neutros como, por exemplo, a liberdade. E se você quiser, pode fazer o teste: a canção
final do disco, Free Bird, é a maior,
mais eloquente, mais bonita, mais longa, mais profunda e mais emocionante
canção de liberdade já escrita.
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| A banda tocando Free Bird nos estúdios da BBC: a bandeira confederada era um dos orgulhos da banda (Foto: Reprodução) |
A principal canção da história da
banda e responsável por fechar o disco, Free
Bird é um épico de dez minutos e oito segundos que tem seus dois lados da
moeda: no primeiros minutos, a voz está decidida a sair, viver o mundo e ver as
coisas que ele não conhece. O ritmo é de uma balada, guiada por uma guitarra slide. Depois do refrão, a tal voz se
cansa, manda tudo às favas e tem o início do solo. Mas é um SOLO, com todas as letras maiúsculas mesmo.
Allen Collins, um cabeludo
desengonçado de 1,91m, lidera incríveis cinco minutos de um solo nervoso, tenso
de uma ponta a outra, com duas paradas de bateria, iguais às das escolas de
samba, onde o êxtase de quem ouve chega ao limite. Escrita pelo guitarrista e
pelo vocalista da banda, a canção parece mesmo escrita para ser ouvida em um
carro conversível, numa rodovia, a mais de 120 por hora.
Apesar
do tamanho, digamos, inchado, o single dela foi lançado na íntegra, e as
mais de duas milhões de execuções em rádios FM, fizeram-na como uma das mais
pedidas em todos os tempos nas estações americanas. O final do jogo Guitar Hero II conta com uma versão
dela. E, nos bares e boates americanas, gritar por esta música equivale ao
nosso “Toca Raul”. Ai de quem não tocar.
Free Bird é
o símbolo máximo do (Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd). Serviu também como um
catalisador inegável de sucesso pra banda, pois afinal de contas não exaltava o
orgulho em ser caipira e branco. E, no final das contas, ajudou a pavimentar o southern rock, que revelou os maiores
guitarristas da história da América. E esse ponto alto na carreira da banda os
seguiu até 1977, quado um acidente de avião matou três membros da banda e a
desfigurou por completo. Por completo mas não para sempre, já que a banda
existe até hoje e sai improvisando longos solos por aí como um pássaro voando
bastante livre.
E
nos vemos em 2014.
Por: Guilherme Mendes
De: Carapicuíba - SP
Email: g.lazaro@outlook.com























