Ouço ao longe o som de
britadeiras. Essas obras que se estendem ao infinito nesta cidade de ninguém...
quando é que elas terão um fim?
Dizem que elas têm algo a ver com
a Copa do Mundo. Existe uma ampulheta aqui perto que diz faltarem 107 dias
para este grande evento e, mesmo assim, eu não vislumbro um final tão próximo
para o acabamento delas.
Recuso-me a abrir os olhos, mas as
ondas sonoras das conversas dos operários e o cheiro do seu café começam a
invadir o ar. Por que é que eles precisam começar a trabalhar tão cedo? Tenho
pensado que os políticos estão transformando as cidades em canteiros de obras, e
mantendo-as bem barulhentas, como forma de impedirem que as pessoas sejam
felizes vivendo por ai. Em minha mente conspiradora isso não passa de um complô
das prefeituras contra a felicidade proporcionada por longas horas de sono.
Meus cães começam a latir e
rosnar. Até eles estão conspirando contra minha alegria de viver. Ouço o latido
firme dos meus cinco vira-latas e decido que é hora de acordar para averiguar o
que está havendo.
Abro os olhos e a luz me deixa
temporariamente cego. Quando me acostumo com a claridade percebo a presença de
uns moleques. Eles tentam fugir sem fazerem barulho, portando as latinhas que
eu havia coletado na noite anterior. Realmente, este mundo já se perdeu. Agora
até mesmo os mendigos estão sendo furtados nesta cidade...
Levantei-me devagar, pois ainda
estava um pouco sonolento, e os enxotei do meu quarteirão. Ora, eles são
jovens, que arrumem as próprias latinhas! Eu já sou um mendigo velho e tenho a
saúde debilitada. Seria bom saber o que houve com o respeito...
Acontecimentos como este têm o condão
de me fazerem pensar. E não é apenas o desrespeito que me espanta. A violência
começa a ir longe demais por aqui. Outro dia mesmo, quando eu estava passando
um café na calçada, observei um arrastão no meio dos carros, na avenida. Os
bandidos andavam de rostos tampados e armas em punho. Quase vislumbrei uma
desgraça quando eles abordaram uma senhora que dirigia um sedã prateado. A
coitada congelou de susto, o que fez com que os marginais se irritassem com
ela, agredindo-a com o cabo do revólver.
Mas viver nas ruas também me
proporciona momentos felizes. Tudo bem que eu não passo de um velho bêbado que
implora por pratos de comida e cachaça, mas gosto de observar a vida e o passar
do tempo para as pessoas que por ai transitam.
Quando se é um mendigo o tempo tem
um significado incomum. Sei que prefiro dormir quando está escuro, mas isso
pouco importa. Dorme-se quando se tem sono. Dorme-se quando se tem fome e sede,
e nada para comer e beber. Em síntese, o nosso tempo se alonga e se prolonga,
quase tanto quanto essas obras infernais que me atormentam.
Eu não tenho muitos dentes. Este
fato me faz mendigar sorrisos. Também gosto de me sentar em praças bonitas e
assistir às crianças brincarem. Elas não possuem nenhuma preocupação, o que as
torna seres mais semelhantes a mim. O tempo para elas também é irrelevante, o
que faz desnecessária toda sorte de ansiedade.
Eu não optei por este estilo de
vida, que é fruto do meu vício. Desde jovem sou alcoólatra e nunca tive alguém que me ajudasse. Às vezes eu penso
que preferiria ser um animal ao invés de um ser humano. Cães e gatos vira-latas
são menos desprezados do que os seres humanos vira-latas. Quando passam a noite
sob as marquises de belas casas, em bairros tranquilos, se não estiverem muito
velhos, se não forem mancos ou se não tiverem muitas pulgas, correm o risco de
ganharem um pão, um sorriso e até um carinho.
Crianças, animais e mendigos
guardam semelhanças. Entretanto, a doçura das primeiras e a lealdade dos
segundos fazem as pessoas sorrirem. Quanto a nós? Bem, nós suplicamos sorrisos.
Por: Marina Gomes Rocha França
De: Belo Horizonte - MG
Email:marinagomesrf@gmail.com
















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