7 de fevereiro de 2014

Cinema: "Trapaça"

Todo mundo parece estar se divertindo muito em Trapaça, o novo filme de David O. Russel. Os atores - quase todos eles já trabalharam com o diretor no passado - tiveram papéis extravagantes que se estendem de forma surpreendente, e Russell lhes dá liberdade para se deixarem levar por esses personagens e correrem com eles.

Foto: Reprodução/Internet
O filme é vagamente baseado no chamado escândalo Abscam dos anos 1970, embora pareça que o interesse de Russell nesta história seja apenas intermitente. Trapaça se revela uma meditação sobre “role-playing”, uma homenagem carinhosa a uma era e, acima de tudo, uma vitrine para um grupo de atores que o diretor claramente adora. Essa devoção ao seu elenco permite que Russell produza alguns momentos maravilhosos, porém em detrimento ao efeito geral do filme.

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Os atores parecem disfarçados. Como Irving Rosenfeld, um malandro de baixa renda aparentemente feliz em ser insignificante, Christian Bale é uma mistura de cabelinho esquisito e intestino pesado. Sua amante e parceira no crime é a bela Sydney Prosser (Amy Adams), que às vezes brinca com um sotaque Inglês tenso e traz uma sexualidade provocante ao seu desempenho, coisa que nunca vimos antes em Adams. Seu golpe bancário os coloca em contato com um homem do FBI chamado Richie DiMaso (Bradley Cooper), um agente ambicioso com um desonesto cabelinho crespo, que se perde nas possibilidades da operação policial, sempre em expansão, que ele trama. Todos esses personagens estão sempre tentando mudar, assumir uma nova persona, mas Trapaça continua empurrando-os em direções diferentes como a série de elaborados empregos do casal protagonista.

Foto: Reprodução/Internet
Foto: Reprodução/Internet
Histórias de vigaristas como esta muitas vezes me fazem pensar que o momento é fundamental. A narrativa precisa bloquear o espectador e nos manter viciados em cada turno da trama, mas também precisa se ​​encaixar como um relógio. Russell desconsidera essa noção enquanto divaga o golpe principal para entrar em algum momento cômico ou dramático com seus atores, o que dá um ritmo estranho – como um botão de parar/iniciar – e uma sensação de que ninguém tem muita certeza de que tipo de filme Trapaça está destinado a ser. O nível de detalhes na caracterização de Bale e Adams lança uma luz crua sobre Jennifer Lawrence, que se apresenta no inapropriado papel de esposa negligenciada de Irving e que nada pode fazer com um personagem tão mal concebido em um script. Russell gosta de armar cenas em uma excêntrica intensidade maníaca, mas o ritmo escapa por toda parte - especialmente na desesperadamente lenta hora de abertura – e o filme parece que poderia facilmente se perder por pelo menos vinte minutos num material estranho.

Foto: Reprodução/Internet

Claro que Trapaça não aspira ser mais do que uma forma de passar o tempo no cinema. O tímido cartão de abertura (“Algumas coisas mostradas aqui realmente aconteceram) e o bizarro detalhe da década de 70 devem rapidamente lhe dar uma pista para o fato de que o filme é uma espécie de brincadeira. Mas a minha decepção resultou mesmo do fato de que eu não me diverti tanto quanto senti que deveria – o meu prazer foi continuamente interrompido pela construção irregular do filme –, e que eu poderia ver momentos de potencial não realizados aqui. O estilo de Russell pode gerar um eletricidade legítima, mas ele muitas vezes parece feliz demais a frente de montagens definidas de músicas clássicas dos anos 70, sem a disciplina necessária para parar o filme a partir da sensação de inchaço e permitir que o enredo se afaste para o final. Tem ocorrido muita conversa a respeito de Trapaça ser um pouco mais do que um pastiche de Martin Scorsese, mas eu não o vejo dessa forma. Este é muito mais um filme de David O. Russell, e o único trabalho que parece uma pálida imitação do seu próprio autor.


Até mais ler.


Por: Pietro Tarantelli
De: São Paulo
Email: tarantellipietro@gmail.com

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