16 de novembro de 2013

Conexão Canadá: E cadê a Luiza?

Depois de algumas, várias, horas de voo e uma conexão em Toronto, eu finalmente havia chegado no aeroporto de Vancouver (YVR). Com a mochila nas costas, uma angústia apertava o meu coração mais do que as várias peças de roupa que eu usava com medo do frio que iria enfrentar.  Eu estava me sentindo perdida, um peixe fora d’agua, não sabia quais eram os próximos passos, e, na verdade, estava aflita de ter que enfrentá-los. Segui o fluxo.  No avião mesmo eu já tinha conversado com alguns brasileiros que estavam na mesma situação, e sendo assim, ao desembarcar fui seguindo as vozes que identificavam a sonoridade, que me acalmava os ânimos, do bom e velho português.

Logo o primeiro desafio surgiu, onde estão minhas malas?  Em qual dessas esteiras eles colocaram? Meu deus, como eu falo meu nome é Camila em inglês? F E R R O U! Uma menina escandalosa estava na mesma situação, mas com mais “ samba – lelê” já foi gritando: “ Ô MOÇU, AI LOSTI MAI BÉGUI, ME AJUDA?” E para ser sincera, de alguma forma o atendente conseguiu compreender, não sei que tipo de curso eles são submetidos para conseguir decifrar tantos sotaques, e embrometions, mas a danada achou a mala dela, e eu fui no embalo.

Minha irmã de sete anos fala que é dela. Foto: Camila Trama
Minha amiga, que mora lá, foi me buscar no aeroporto. Senti uma felicidade muito grande quando eu a vi.  Estava segura. Ela me entregou um alce de pelúcia vestindo uma roupinha com a bandeira do Canadá, uma graça. Saindo do aeroporto um frio cortante me deu as boas vindas.  Sim, definitivamente estou no Canadá. Entramos no carro e eu fui analisando tudo, como se nunca enxergará antes. As cores não eram as mesmas, os detalhes, o sentimento, principalmente eu. Eu entendi naquele momento minha frivolidade diante da imensidão de possibilidades do mundo, e isso não iria mais voltar,  as portas se abriram!

A janelinha ali de cima era o meu quarto! Foto: Camila Trama
Depois de ficar na casa dela, tomar um bom banho, e comer uma comidinha, fui para a casa na qual eu passaria o resto da experiência.  Eu já tinha procurado a foto da casa no Google Maps, mas por muito azar, na hora que tiraram a foto, um caminhão de, sei lá o que, estava estacionado bem na frente da casa, cobrindo -a por completo. TÁ SERTO!  A família que me esperava era das Filipinas, um arquipélago na região asiática, e que moravam no Canadá já fazia vinte anos.  Foram super calorosos e apesar da vergonha, já conseguia ver aquele lugar como meu novo lar. O êxtase de ver coisas novas era viciante.  Entrei no meu quarto e minha caminha estava ali, arrumadinha. Que maravilha!! Conversei com meu namorado antes de dormir, e não conseguir conter as lágrimas, vê-lo ali, sorrindo para mim, e ao mesmo tempo tão longe, me cortava o coração. Beijei a tela fria do computador que em nada lembrava a boca macia dele. De todo modo estava contente, estava lá. Dormi cedo, no dia seguinte teria meu primeiro dia de aula.
Lugar que fui  pouco antes de me perder.  Foto: Camila Trama
Acordei com uma animação de outro mundo, nunca tinha acordado tão feliz para ir à aula como naquele dia. No dia anterior tanto o pai da minha amiga quanto minha “mãe adotiva” tinham me explicado como ir e voltar da escola.  Eu subestimei minha capacidade de me perder. Após a aula, que foi um dia bem descontraído para dar as saudações aos novos alunos e comer uma pizza deliciosa de pepperoni com toda a galera, fui fazer o percurso de volta para a casa toda linda e charmosa me achando a rainha do camarote. Eis que, depois de entrar no ônibus, noto que o caminho estava um pouco diferente do que eu havia feito anteriormente. Mas continuei lá, sentada e sorridente.  Não, não, não aquele caminho não estava certo.  Apertei o botão e desci do ônibus,  voltei tudo de novo a pé até o ponto da onde eu tinha partido, e o frio batendo. Dois jovens com roupas no estilo gótico começaram a se encarar na rua, e de repente voaram um em cima do outro e se socavam alucinadamente. Gente, que isso? Cadê a segurança de que falaram tanto? Eu congelei, e parecia que estava dentro de um filme. Uma viatura veio em alta velocidade e logo dois policias cercaram os jovens. YOU HAVE THE RIGHT TO REMAIN SILENT! Nem sei se eles falaram isso, mas eu imaginei. Mentira, na verdade, eu ainda tava nas lições do verb to be! Depois de todo esse bafafá e quase considerando virar uma andarilha eu resolvi ligar, chorando, para o meu namorado. Glorificado seja o Nextel! Ele com todo amor do mundo virou meu GPS personalizado, me indicando o caminho ao som dos meus soluços. O dia estava chuvoso, e com muita neblina. Ao chegar em casa ainda tive que desenrolar um inglês macarrônico para explicar o por quê de ter chego tão tarde... Oh Canada.
Flores que agregam no modo "flor "da câmera digital

Só um plus: foram incontáveis as vezes que eu escutei a piadinha da Luiza, que está no Canadá...
Não, eu não trombei com ela.





Por: Camila Trama
De: São Paulo - SP
Email: camila.trama@hotmail.com

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