#05: Visibilidade Trans

Confira na capa do mês de fevereiro da Revista Friday, uma entrevista sobre os desafios de uma pessoa trans, com a ativista LGBT Rebecka de França.

INTERNET: Mudanças, tecnologia e Google+

Confira algumas mudanças que o google+ realizou para agradar os usuários.

Conexão Canadá: Vancity- The Journey begins

Camila Trama nos conta um pouco de seu intercâmbio em alguns lugares do Canadá.

CINEMA: Sassy Pants

Rebeldia, insatisfação e as paixões fazem parte do cotidiano de todos os adolescentes, confira a resenha do filme Sassy Pants.

VITRINE: O universo feminino de Isadora Almeida

Inspirada por ilustrações de moda, estamparia e coisas que vê por aí, conheça o trabalho da ilustradora mineira Isadora Almeida.

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21 de janeiro de 2014

Não se fazem mais passados como antigamente #28 – Eu vos declaro guitarra-solo e guitarra-base




Made Up Mind_Tedeschi Trucks Band
Lançamento: 20 de agosto de 2013
Gravadora: Masterworks
Nota: 8,5/10




                (Quase) ninguém no Brasil notou. O máximo que aconteceu foi uma notinha no site daWhiplash: a Allman Brothers Band, uma das mais tradicionais bandas americanas de todos os tempos – e a favorita deste autor no país – vai perder os dois guitarristas da banda neste ano – o autor volta a insistir que eles são os melhores americanos em atividade hoje.  Enquanto Warren Haynes, o gordinho, vai focar a sua Gibson Les Paul em direção ao reggae blues de seu projeto paralelo, a Gov’tMule, Derek Trucks, um cabeludo loiro de 34 anos, decidiu sair para se doar inteiramente ao grupo que mantém com sua mulher.
                Mulheres. Destruindo bandas. Há uns 40 anos a gente se lembra de uma japonesa que acabou com uma daquelas bandas britânicas dos anos 60. Mas dessa vez, não precisamos ter taaaanto ódio assim. Derek Trucks e Susan Tedeschi são  daqueles em que se pode botar fé no futuro próximo.

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Susan Tedeschi (centro) e Derek Trucks, seu marido, à esquerda. (Foto: Reprodução)

                Derek Trucks. 34 anos mas, desde quando se apresentou pela primeira vez com o Allman Brothers (de onde o tio é baterista), uma joia rara. E quando isso aconteceu ele tinha apenas 13 anos! Como ele era pequeno demais para operar sua Gibson SG, ele adotou o uso do slide, que é a técnica de fazer som com um tubo. Essa técnica o consagrou e ele mantém até hoje, sendo o melhor da área ainda vivo.
                Depois de umas aparições aqui e ali na ABB, ele se juntou à banda em 2000. No único trabalho de estúdio em que ele contribuiu, o magistral Hittin the note, a sua contribuição é sentida de longe – Old Friend me dá arrepios há uns cinco anos. Em 2001, ele se casou com Susan Tedeschi, uma cantora e guitarrista que lembra, em alguns aspectos, Bonnie Raitt. Não demorou pra que nascesse a Derek Trucks & Susan Tedeschi Band, especializada em tocar covers de country e muita, mas muita improvisação (o famoso jam).
                Em 2011, já com o novo nome, veio o primeiro álbum: Revelator é uma porrada, com uma banda potente e grande (a TTB possuía 11 membros no palco à época), onde as funções de cada um estão bem estabelecidas: Susan canta, num timbre mais rasgado, e mantém uma guitarra-base bastante sólida. Trucks é responsável pelo espetáculo – e se Eric Clapton o considera um dos melhores dessa geração; e se a Rolling Stone o elegeu o 16º maior guitarrista de todos os tempos , o show vale muito. Midnight in Harlem é a prova de que habilidade não falta (Warren foi o 23º do mesmo ranking).
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                O disco mais atual, que não foi eleito em nenhuma lista dos “melhores de 2013”,dá uma sequência mais madura ao projeto. E ajudou os membros da banda, que agora eram 10, a se lançarem numa turnê maior, passando de fundo de festival (como foram no SWU, em 2011), para locações maiores (como teatros e casas de shows de verdade). O segredo está na grande experimentação experimentada por Derek, que é quem ainda atrai as atenções. A atuação “marido-e-mulher” é mais soturna que a apresentada pela Delaney and Boonie; mais descompromissada do que a Plastic Ono Band de Yoko e Lennon. E com uma alma muito mais verdadeiro do que Maria Cecília e Rodolfo.
                A guitarra, que no primeiro disco era tomada em slide, agora busca acordes mais gentis – dá pra falar que Part of me é uma canção fofa. Os solos, que são puxados por Trucks, tem a marca registrada da Allman Brothers, que é a jam: eles duram, no disco, um minuto. Mas ao vivo podem se estender por cinco, dez minutos. All That I Need é uma delas e The Storm é uma composição gutural de uma ponta a outra. Nada pode ser mais orgânico que isso, e há de se notar o mérito do guitarrista de beber em inúmeras fontes para criar novos caminhos com sua Gibson SG – ainda a mesma da infância.
                As 11 músicas não têm muito em comum a não ser a afinadíssima sintonia entre o casal – e uma participação da banda em si que é digna de nota. Entre os 8 membros, se encontram dois bateristas (que, combinemos, e um exagero), dois cantores de coro e um competente setor de sopro, com trompetista, flautista e saxofone. A interação produz um blues mais com a cara de um século XXI, às vezes com pegadas de ska e country com canções produzidas, mas muito pouco alteradas em estúdio. Convém lembrar aqui que, durante os shows, é quase impossível ver algum pedal de efeito na guitarra. O som é completamente puro e, mesmo não chegando ao top 10 de vendas, os críticos reconheceram a qualidade do grupo, e começaram a considerar a TTB como uma das apostas para o rock da terra do Tio Sam nesta década, junto com gente como Gary Clark Jr. e Phillip Phillips.
                E talvez essa promessa de crescimento e grandeza  fosse a principal causa para que Derek Truck abandonasse o barco da Allman Brothers Band, ao mesmo tempo em que o outro guitarrista também buscasse outros ares. A Gov’t Mule, mesmo existindo desde 1994, parece ter mais ainda para provar. Os dois se juntarão pela última vez à banda que os revelou na tradicional temporada que eles fazem no Beacon Theatre, em Nova York.

O autor volta a este texto para rifar seu rim e, assim, poder assistir um desses shows. Aproveita e avisa: não bebe, então ele o órgão está novinho e em condições de uso.


Por: Guilherme Mendes
De: Carapicuíba - SP
Email: g.lazaro@outlook.com

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26 de novembro de 2013

Não se fazem mais passados como antigamente #24 - Complexo de "re"




Wrecking Ball_Bruce Springsteen
Gravadora: Columbia Records
Lançamento: 5 de março de 2012
Nota: 8,5/10




Poucos artistas mundo afora têm tanto fôlego quanto Bruce Springsteen. Se você não acredita, dê uma passada numa das melhores provas disso: um perfil do YouTube, de nome “BRUCETHEBOSS2012”, não se sabendo ao certo se é algo gerido pela equipe do cantor ou por algum fã. Seja lá quem for o autor, ele é responsável por disponibilizar o áudio integral dos shows da turnê Wrecking Ball Tour, promovendo o álbum homônimo. Ali se tem shows de, no mínimo, duas horas e meia. As  últimas postagens têm a ver com a passagem do cantor pelo Brasil no mês de setembro: o show dele no festival Rockin Rio está lá, com suas duas horas, quarenta e seis minutos e onze segundos. Uma apresentação em Helsinque ano passado também está lá, com suas quatro horas e trinta e sete minutos, completa (!!!)
                Esses shows épicos pelos quais Springsteen tão famoso, essa alegria de estar no palco vem, em grande parte, do sopro na qual o álbum mais recente do cantor trouxe à sua carreira. Após uma sequência de álbuns pouco inspirados, ele voltou aos estúdios no início de 2012 para a concepção de Wrecking Ball. Afinado como sempre à E Street Band – provavelmente a melhor banda de apoio da história da música, Bruce recriou o modo como se apresenta no palco. Nunca foi surpresa pra ninguém a sua capacidade de fazer o show se tornar uma experiência ímpar – nem é esse o motivo da discussão aqui. 
                Mas este é o primeiro álbum do cantor sem Clarence Clemmons, o mítico saxofonista à sua direita nos palcos por mais de 40 anos. Clarence faleceu em 2011 e Bruce buscou em seu sobrinho, o jovem Jake Clemmons, a nova mistura de solos envolventes com uma equipe inteira de metais – nos shows do Brasil, a banda chegou a incríveis 18 membros, incluindo um trompetista e um tubista (sim, uma tuba).
                Como Clarence era o braço-direito de Springsteen durante os shows, não seria surpresa se suas apresentações perdessem em potencial, ou se o cantor buscasse uma fase introspectiva e morna em seu trabalho. Como David Remnick contou em um perfil na revista The New Yorker, isso é quase impossível se tratando de Springsteen.  Com 64 anos, ele não para um momento. Nesse disco se vê, desde os singles lançados como prévia do álbum, um Boss (o Chefe, apelido entre os fãs) acertando na mão novamente ao aliar melodiais formam a música americana com letras fortes, simbólicas, mas ao mesmo tempo cáusticas. Há tempos ele não compunha assim.

*          *          *

                Quando tinha lá meus 15 anos, não conseguia entender direito o porquê de tanta gente, dos quatro cantos do planeta, amavam tanto a obra-prima do cantor, Born in the U.S.A. Quando ouvia aquele riff inicial e o refrão tipicamente meloso, o tio Sam passava nos pensamentos, a águia, os tanques de guerra, tênis Nike e grandes Big Macs. Durante uns anos, nutria certo ódio por ela. Mas a letra ganhou um novo tom quando investiguei sua origem, algum tempo atrás: Ela possui o valor de ser um depoimento de um ex-combatente na guerra do Vietnã, incapaz de entender como foi parar em campo alheio matando “homens amarelos”, chorando a morte de irmãos, da desilusão de voltar pra casa e ser um excluído do maior país do planeta.
O disco vendeu como água (passando as 30 milhões de cópias) e Bruce, elevou-se como um santo entre seus fãs – gente simples do mundo todo – e a canção virou um símbolo da América dos anos 80, de Reagan, recessões e Guerra Fria em seu fim.  Sim, Bruce virou santo, não deus. Pois, se fosse deus, não teria se jogado no público como fez em São Paulo, deixando-se levar pelas mãos daqueles incrédulos da pista premium do Espaço das Américas naquela noite chuvosa de uma quarta-feira de novembro.
Com o novo disco, o cantor e guitarrista americano revive o espírito do cidadão comum, com críticas ao American Way of Life.A faixa de abertura, We Take Care of Our Own, ou “Nós tomamos conta de nós mesmos”, é uma pesada ironia contra um governo americano bipolar a ponto de solucionar a crise econômica de 2008 salvando bancos – e despejando os contribuintes de suas casas. (Entre os críticos de Springsteen, conforme lembra Remnick em seu perfil, a mesma critica sobra ao cantor: Bruce fala de uma vida de trabalhador operário quando ele, um eterno artista desde a adolescência, nunca botou muito a mão na massa).
Por isso, nessa canção, ele usa do artifício inventado pelo seu ídolo inspirador – Bob Dylan: ele pergunta. A pergunta une músico e fã, lima as lacunas entre dois universos, e instaura a comunicação e uma identidade entre ambos. Foi assim com Like a Rolling Stone de Dylan, e é assim com Springsteen:

Onde está o trabalho que libertará minhas mãos e mina alma?
Onde está o espírito que reinará, reinará sobre mim?
Onde está a promessa da Costa Leste à Costa Oeste?

                As letras remetem sempre àquele americano comum, não necessariamente aqueles de Manhattan ou Los Angeles. A balada Jackof All Trades é exatamente seu título – uma gíria para “Pau para toda obra”. Death to My Hometown tem inspirações da música irlandesa (terra dos antepassados de Springsteen) e ainda bate na tecla da crise de 2008, numa alegoria de uma cidade destruída não por bombas ou armas, mas pela falta de capital (Detroit, sede do império automotivo ianque, virou um grande exemplo dessa “Morte”).  A faixa-título é quase uma reflexão autobiográfica, com o cantor falando dos “pântanos de (Nova) Jersey” e de como as coisas vêm e vão.

*          *          *

                Se as músicas de Wrecking Ball ficaram como hinos de um tragédia moral, 2012 ainda guardava uma outra, só que climática: em outubro o furacão Sandy matou 148 pessoas e deixou uma cicatriz quase irreparável na costa leste americana. Pouco acostumados a receber uma tragédia com furacões, os estados de Massachusetts, Nova Jersey e mesmo a cidade de Nova York sofreram com enchentes, corte de energia e desabamento de grande parte da infra-estrutura, o que abalou o brio da nação como não se via desde 2005, quando o Katrina tornou Nova Orleans um mar de desabrigados.
                Logo que a tempestade arrefeceu e o céu abriu, os ianques olharam para as pilhas de escombros, carros virados, os incêndios, e procuravam por uma luz ou mesmo uma reles musiquinha para irem assoviando enquanto iam juntando os cacos.
                Aí aparece o Chefe de novo.
                Bruce sempre teve a capacidade de reunir o povo americano. Foi assim com Born in the USA. Foi assim também com The Rising, álbum de 2001 onde as músicas falavam sobre os atentados de 11 de setembro – isto ajudou a elevar a moral de um povo americano abalado como nunca.  E o mesmo aconteceu em 2012, quando Land of Hope and Dreams, faixa criada treze anos antes, entrou como o hino extraoficial da reconstrução dos estragos do Sandy. Em Death to my hometown, Bruce lembra:”get yourself a song to sing, and sing until you’re done” (“escolha uma canção para cantar, e cante até cansar”). E eles fizeram isso. O espírito indestrutível do povo americano foi algo que coube a Bruce restaurar. Foi em seu entorno na qual eles se reuniram e buscaram força e inspiração (exemplo disso foram os concertos beneficentes na qual ele participou). Americano nenhum deixaria de se identificar com ele.

Eu te sustentarei
E ficarei ao seu lado
Você precisará de uma boa companhia agora
Nessa parte da viagem
Deixe pra trás a tristeza
Deixe que esse dia seja o último
O amanhã saldará a luz do sol
E toda essa escuridão passará
*
As grandes rodas deslizando através dos campos
Onde brilha a luz do sol
Encontre me na terra de esperança e sonhos.

                O álbum chegou ao número 1 das paradas americanas. A Rolling Stone americana o nomeou o álbum do ano (mesma opinião do autor dessa humilde resenha) e ainda produziu uma edição, com Springsteen na capa, onde o chamava de “Melhor show ao vivo da atualidade”. Isso pode ser claramente visto nos dois shows do cantor fez no Brasil, os primeiros em 25 anos: três horas e dezesseis minutos em São Paulo, e o melhor show entre todos no festival carioca, na visão da crítica especializada.
                Springsteen fechou no Brasil uma turnê capaz de impressionar por lotar estádios no mundo todo, mesmo com sucessos de 30 ou 40 anos. Os show nunca tem um setlist fixo: o cantor sobe, toca lá algumas músicas e, em dado momento do show, atende os pedidos dos fãs, já acostumados a levar placas com seus pedidos para os shows. De sucessos lado B até canções de Elvis ou Clash ou Ramones, a E Street Band se mostra preparada pra qualquer coisa – tal qual não foram as caras de surpresa quando, frente às câmeras da Globo e de 100 mil pessoas, a banda canta “Sociedade Alternativa”, clássico de Raul. Como era a primeira música, nem houve tempo para engraçadinhos gritarem “toca Raul!”, sobrando apenas queixos caídos pela Cidade do Rock.
                Desde o início da turnê os críticos e especialistas se contorcem pra tentar explicar como podem existir shows tão longos e díspares entre si, redesenhando o conceito de rockstar (talvez gente como Queen e Aerosmith não aguentariam coisas assim). 142 shows e 19 meses depois, a turnê terminou com Bruce gritando “I Love You” aos cariocas, às 2h51 da manhã, e prometendo voltar. Nessa turnê ele já gravou novas canções – High Hopes foi gravada na Austrália e conta com Tom Morello, ex- Rage Against The Machine, na guitarra – e em 2014 ele já tem quatro datas na África do Sul e 13 datas na Oceania, revivendo seu pique mais juvenil mesmo depois de passar dos 60.

                Recriar. Redesenhar. Reunir. Restaurar. Reviver. E Bruce tem na gaveta uma centena de canções, uma promessa de gravar um novo disco, e de voltar ao Brasil o mais rápido possível. É sentar e esperar pois, seja lá o que for, ele vai fazer novamente.


Por: Guilherme Mendes
De: Carapicuíba - SP
Email: g.lazaro@outlook.com

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